Nevoeiro identitário: o teatro útil dos poderes abjectos
BOX DE FACTOS
- As desigualdades materiais globais continuam a agravar-se, mesmo em economias formalmente democráticas.
- A pobreza extrema e a concentração de riqueza persistem como motores centrais de exclusão social.
- Grande parte do activismo identitário mediático desloca o foco da questão de classe e das estruturas de poder.
- O ruído simbólico serve muitas vezes de cobertura à pilhagem silenciosa operada por elites económicas e políticas.
- Sem humanização efectiva das instituições e da economia, toda a retórica moral corre o risco de ser apenas cosmética.
Nevoeiro identitário: o teatro útil dos poderes abjectos
Vivemos numa época estranha, quase grotesca, em que o barulho moral aumenta na exacta proporção em que a injustiça concreta se instala com mais conforto. Multiplicam-se activismos de vitrina, campanhas de sensibilidade coreografada, cruzadas semânticas e indignações instantâneas, enquanto o mundo real — o da pobreza, da precariedade, da captura política e da concentração obscena de riqueza — prossegue a sua marcha de cilindro silencioso. A plateia discute palavras. O sistema recolhe rendas.
É neste ambiente que floresce o
O truque mais antigo do poder
Os poderes abjectos sempre dominaram uma arte antiga: fazer com que os de baixo discutam símbolos enquanto os de cima controlam estruturas. É a velha habilidade de desviar a atenção da arquitectura para a decoração. O povo exalta-se com palavras, sinais, pronomes, susceptibilidades e identidades em combustão, enquanto uma minoria muito concreta continua a decidir acesso à habitação, à saúde, à educação, ao crédito, ao emprego estável e ao futuro.
Nada disto é acidental. O ruído cultural funciona como um excelente amortecedor político. Fragmenta solidariedades, dissolve a questão de classe, divide os explorados em subtribos morais e entrega às elites um presente precioso: a possibilidade de continuarem a governar sem escrutínio sério sobre a distribuição real do poder e da riqueza. Quanto mais o debate público se afunda em neblinas simbólicas, menos se fala da realidade material. E o sistema agradece, com aquele sorriso cínico de quem sabe que as massas raramente olham para a caixa-forte quando lhes oferecem uma guerra de espelhos.
A pobreza: o estigma-mãe que os activistas de salão ignoram
Há uma verdade brutal que o activismo mediático raramente gosta de encarar: a pobreza continua a ser o grande estigma das sociedades contemporâneas. O pobre não é apenas quem tem menos dinheiro; é muitas vezes quem perde tempo, saúde, dignidade, margem de erro, protecção institucional e até visibilidade humana. O pobre é aquele que pode ser humilhado sem escândalo. Pode ser esquecido sem manchete. Pode ser descartado sem que o algoritmo da indignação toque sirene.
Não importa a cor, o sexo, o sotaque ou a embalagem discursiva: quando se entra no território da pobreza, entra-se no domínio duro da irrelevância social. Aí, os discursos identitários revelam muitas vezes a sua natureza decorativa. Falam de reconhecimento simbólico, mas calam-se perante a humilhação material. Exigem linguagem higiénica, mas toleram instituições porcas. Combatem fantasmas de semântica, mas não tocam nas engrenagens que moem vidas todos os dias.
A moral de vitrina e a realidade de lixeira
A tragédia moderna não está na ausência de moral discursiva. Está precisamente no seu excesso. Nunca se falou tanto de empatia, diversidade, inclusão e respeito, e talvez raramente se tenha aceite com tanta serenidade uma ordem social que converte pessoas em unidades de custo, consumidores de dívida, peças descartáveis ou estatísticas geríveis. A palavra tornou-se nobre, a estrutura permaneceu abjecta.
O activismo ridículo vive nesta contradição como peixe em água morna. Ele não quer necessariamente resolver o problema; quer administrá-lo sob holofotes. Precisa de causas fragmentadas, indignações rápidas, símbolos frágeis e inimigos instantâneos, desse que exista uma camera e um microfone. O que ele não suporta é a centralidade das condições materiais, porque aí o teatro vacila. A desigualdade de riqueza, a captura das instituições, a degradação dos serviços públicos, a especulação imobiliária, a precarização do trabalho e a desumanização burocrática não cabem bem em slogans de bolso. Exigem análise, conflito sério, coragem cívica e uma espécie de maturidade que o activismo performativo raramente possui.
A utilidade política do disparate
Convém dizê-lo sem rodeios: muito do activismo identitário contemporâneo é útil ao poder precisamente porque é impotente diante dele. Faz barulho suficiente para simular combate, mas é inofensivo para a estrutura. Gera polarização suficiente para dividir os de baixo, mas não ameaça os de cima. Produz linguagem moral suficiente para dar à época um verniz de superioridade ética, mas não desloca um milímetro os mecanismos fundamentais da exploração.
Na romo antiga era bem conhecida frase, que se aplica como uma luva nos tempos que correm. “Ao povo, pão e circo”.
e “dividir para reinar”.
Enquanto a multidão discute se determinada frase foi aceitável, sobe a renda. Enquanto se organiza mais um tribunal moral em torno de uma ofensa de superfície, agrava-se o custo de vida. Enquanto se exigem códigos de pureza verbal, multiplicam-se fortunas blindadas, paraísos fiscais, carreiras políticas vazias e instituições cada vez mais desligadas da carne viva dos povos. No fundo, este activismo funciona como um fumo cénico. Parece incêndio moral; é apenas cobertura táctica.
Quando a biologia, a pobreza e a condição humana são substituídas por catecismo
Outra das marcas deste nevoeiro é a recusa da realidade quando ela não encaixa na doutrina do momento. Diferenças biológicas entre homens e mulheres, por exemplo, são tratadas por certos activismos como se fossem uma ofensa moral em vez de um dado elementar da natureza. Não se aceita a diferença; suspeita-se dela. Não se observa o real; acusa-se o real de ser inadequado. A biologia é chamada ao banco dos réus porque se recusa a obedecer ao comité ideológico.
Mas o mesmo mecanismo vale noutras frentes. A pobreza é substituída por taxonomias sentimentais. A condição humana é repartida em etiquetas. A dor concreta é trocada por mapas de susceptibilidade. E o resultado é uma sociedade cada vez mais eloquente sobre símbolos e cada vez mais impotente diante do essencial. Em vez de subir civilizacionalmente, afundamo-nos em dramaturgias de superfície.
O que uma sociedade verdadeiramente humana teria de fazer
Uma sociedade que quisesse realmente evoluir para outro patamar de humanização não começaria por policiar minúcias verbais. Começaria por garantir dignidade material, acesso justo a habitação, saúde funcional, educação séria, trabalho com estabilidade, protecção efectiva na velhice, e instituições menos capturadas por interesses privados e menos viciadas em burocracia desumana.
Só depois disso faria sentido discutir o refinamento do discurso moral. Antes disso, tudo o resto é decoração sobre destroços.
O verdadeiro salto civilizacional não está em multiplicar sensibilidades administradas; está em reduzir a distância entre o valor humano e o valor de mercado. Está em recusar que a vida de alguém seja medida pelo saldo bancário, pela utilidade económica ou pela capacidade de se vender bem numa sociedade de vitrinas. Enquanto isso não acontecer, continuarão a existir injustiças, ressentimentos, exclusões e mecanismos de descarte — por mais que activistas de salão se contorçam em campanhas de espuma.
O nevoeiro não é inocente
Há, pois, que abandonar a ingenuidade. O nevoeiro identitário não é apenas uma moda irritante. É, muitas vezes, uma funcionalidade do sistema. Serve para dispersar a crítica, para miniaturizar a revolta, para transformar problemas sistémicos em querelas emocionais e para oferecer à oligarquia contemporânea aquilo de que ela mais gosta: uma população cansada, dividida, moralmente excitada e politicamente inofensiva.
É por isso que tantos poderes parecem, no fundo, tão confortáveis com este tipo de activismo. Porque ele simula transgressão sem tocar no cofre. Faz teatro contra a sombra e poupa o corpo. Grita contra palavras e beija estruturas. E assim a miséria continua, a desigualdade aprofunda-se, a democracia esvazia-se e a sociedade aprende a confundir espuma com consciência.
Referências internacionais
World Bank, actualizações sobre pobreza e desigualdade global, incluindo relatórios de 2025 sobre a persistência da pobreza extrema e da desigualdade material.
Oxfam, relatórios e comunicados recentes sobre a aceleração da riqueza dos bilionários e os efeitos sistémicos da concentração extrema de riqueza.
UN Women, dados internacionais sobre pobreza extrema feminina, exclusão e desigualdades persistentes à escala global.
World Economic Forum, Global Gender Gap Report 2025, com indicadores de paridade económica e política.
The Guardian, análise crítica sobre a hipertrofia da política identitária e o seu impacto no afastamento da questão de classe.
Financial Times e Brookings, reflexões sobre democracia contemporânea, fractura social, classe média comprimida e disfunções estruturais do sistema.
Epílogo
Quando uma civilização passa a discutir obsessivamente a linguagem com que descreve o sofrimento, mas evita discutir as estruturas que o produzem, já não está a caminhar para a justiça. Está apenas a sofisticar a máscara. E uma máscara, por mais dourada que seja, continua a ser apenas isso: o rosto falso de uma verdade que mete medo olhar de frente.
Fragmentos do Caos | Crónica editorial de combate cívico, lucidez social e recusa do nevoeiro.
As ruas enchem-se de palavras inflamadas e gestos coreografados; nos bastidores, o poder corrupto agradece a distracção e prossegue o saque.
Frase final: Quando o poder saqueia em silêncio, os activismos ridículos fazem o favor de lhe fornecer o fumo.
Nós, em Fragmentos do Caos, capturamos a realidade, analisamos as sombras e expomos as farsas com que o poder encena a verdade.


