Operação Marquês: O Estado em Modo Ridículo — quando a justiça vira folclore
- O julgamento da Operação Marquês voltou a ser suspenso por renúncias/alterações na defesa, alimentando a percepção pública de um processo sem fim.
- O Supremo Tribunal de Justiça rejeitou recurso de José Sócrates contra a alteração da qualificação de crimes (fevereiro de 2026).
- Quando a justiça demora indefinidamente, o Estado perde: perde confiança, perde autoridade moral e perde a capacidade de disciplinar a corrupção com credibilidade.
- A Europa mede eficiência e confiança na justiça com instrumentos públicos (EU Justice Scoreboard, Rule of Law Report, WJP Rule of Law Index). E nós, cá dentro, medimos com bocejos.
Operação Marquês: o Estado em Modo Ridículo — quando a justiça vira folclore
Há um ponto em que a lentidão deixa de ser imperfeição humana e passa a ser fracasso institucional.
E esse ponto, em Portugal, há muito que ficou para trás — algures entre a solenidade das leis e a realidade do papel timbrado a acumular pó.
O julgamento de José Sócrates transformou-se num objecto estranho: uma espécie de monumento nacional ao arrastamento.
Já nem é “um processo complexo”; é um ritual.
Um ritual em que a forma engole o conteúdo, em que cada passo abre uma nova porta, e cada porta dá para um corredor ainda mais comprido.
O cidadão não vê justiça. Vê coreografia e circo.
O Estado perde sempre — mesmo quando “ganha”
Se houver condenação, o país vai ouvir: “tarde demais”, “já ninguém acredita”, “foi por desgaste”.
Se houver absolvição, o país vai ouvir: “afinal era espuma”, “foi perseguição”, “queimaram anos para nada”.
Em ambos os cenários, a credibilidade do Estado sai ferida — porque o que era para ser justiça tornou-se espectáculo de resistência.
A justiça tem de ser exigente, sim. Tem de respeitar garantias, sim.
Mas há uma diferença entre garantias e eternidade.
E quando um processo se arrasta até ao absurdo, o que se destrói não é apenas a paciência; destrói-se a própria ideia de que o país consegue ser sério consigo mesmo.
O “carrossel” que o povo vê
Nos últimos tempos, o processo voltou a tropeçar em suspensões ligadas à defesa, renúncias e recomeços.
Do ponto de vista do cidadão, isto não parece prudência: parece impunidade por cansaço.
E essa percepção — justa ou injusta — é politicamente venenosa, porque instala a suspeita de que existe uma justiça para o povo e outra para quem tem tempo, meios e estratégia.
A Europa, que nós invocamos sempre com um ar de superioridade civilizacional, mede a eficiência e a confiança dos sistemas judiciais.
Publica relatórios, indicadores, comparações, alertas.
Portugal aparece nesses retratos e, ainda assim, parece insistir no vício antigo: discutir a casca, adiar o fruto, e chamar “normalidade processual” ao que, em bom português, já é vergonha pública medonha.
O que tem de acabar (sem truques perigosos)
Ninguém sério pede atalhos que destruam direitos de defesa.
O que se pede é outra coisa — mais simples e mais rara: governação processual.
Calendários vinculativos, menos permissividade para interrupções tácticas, regras claras sobre incidentes em julgamento, e meios reais para processos económico-financeiros gigantes.
Porque há uma verdade que se diz baixinho, mas devia ser dita alto: um Estado que não consegue terminar um julgamento desta dimensão
acaba por ensinar ao país que o crime compensa… desde que seja suficientemente complexo, suficientemente caro, e suficientemente lento.
Epílogo: o ridículo como corrosão
A justiça não pode ser uma maratona sem meta.
Um país não se torna civilizado por repetir “Estado de direito” em discursos — torna-se civilizado quando o Estado é capaz de actuar com rigor,
tempo razoável e seriedade.
Se isto continuar assim, restará uma conclusão amarga: não estamos a julgar um homem — estamos a julgar um sistema, que continua incapaz e incompetente para fazer Justiça.
E o sistema, por ora, está a perder em directo.
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Comissão Europeia — 2025 Rule of Law Report: Country Chapter on Portugal:
documento oficial -
Comissão Europeia — EU Justice Scoreboard (indicadores anuais de eficiência, qualidade e independência da justiça):
página oficial -
World Justice Project — Rule of Law Index (Portugal – Insights):
perfil do país -
World Justice Project — Portugal: Rule of Law Index 2025 (PDF):
ficha 2025
A justiça que se arrasta até ao infinito não é justiça: é a impunidade a rir-se do povo, com toga e carimbo.


