Banalidade do mal extremo,  Democracia e Sociedade,  Manipulação da verdade,  Mediocridade,  Nepotismo

O Ódio em Traje Religioso: quando o século XII se liga à fibra óptica

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BOX DE FACTOS
  • O extremismo violento tende a capturar símbolos sagrados para fins políticos: pertença, obediência e licença moral para destruir.
  • O alvo civilizacional não é a fé nem os crentes: é o incitamento ao ódio e a máquina organizada de violência.
  • O direito internacional dos direitos humanos reconhece limites à expressão quando há incitamento à discriminação, hostilidade ou violência (Rabat Plan of Action).
  • A ONU e a UNESCO defendem abordagens “de espectro total”: segurança + prevenção (educação, inclusão, direitos, governação) contra radicalização.
  • O século XXI tem instrumentos modernos (redes, criptos, drones) ao serviço de mentalidades arcaicas: a fusão é o perigo.

O Ódio em Traje Religioso: quando o século XII se liga à fibra óptica

Não é Deus que mata. Não é o sagrado que explode. É o humano — quando descobre que pode vestir o ódio com vestes de altar, e assim transformar a crueldade em “virtude”.
O século XII regressa, não em cavalos, mas em sinal 5G.

Há um tipo de violência que não quer apenas vencer. Quer purificar. Quer converter o mundo inteiro num tribunal onde o veredicto vem antes do julgamento.
É a violência que se alimenta de certezas absolutas: um “nós” escolhido, um “eles” condenado, um destino proclamado como se a História tivesse assinatura divina.

Quando essa violência se apresenta como religião, ela ganha três vantagens estratégicas: legitimação, recrutamento e impunidade moral.
Legitimação, porque o agressor diz “não sou eu, é a vontade superior”.
Recrutamento, porque oferece pertença e sentido a quem está fragmentado.
Impunidade moral, porque desloca a responsabilidade: a culpa deixa de ser humana e passa a ser “necessidade sagrada”.

1) O mecanismo: do sagrado ao servo — quando a fé é capturada por um projecto de domínio

A fé, no seu núcleo, pode ser bússola íntima: consolo, ética, transcendência, esperança.
O extremismo, ao contrário, não quer transcendência: quer controlo.
Captura palavras antigas, selecciona versos, recorta tradições, inventa purezas, e cria uma liturgia de obediência.
Onde antes havia mistério, instala-se ordem; onde havia compaixão, instala-se hierarquia; onde havia dúvida, instala-se proibição de perguntar.

O “século XII” que invoco é, aqui, metáfora de mentalidade: a ideia de que a humanidade se divide em castas morais e que o dissidente é um inimigo ontológico.
Mas a perversidade contemporânea é esta: a mentalidade arcaica aprendeu a usar tecnologia moderna.
A radicalização não precisa de praça pública; basta-lhe um algoritmo.

2) O ódio vestido de religião tem uma gramática: incitamento, desumanização, purificação

Antes da violência física, vem a violência semântica.
Não se mata um ser humano; mata-se “um infiel”, “um traidor”, “um impuro”, “um verme”.
Este é o passo central: a desumanização.
Uma vez desumanizado o outro, qualquer acto torna-se “higiene”. E o holocausto esta ai bem presente, para nos lembrar isso mesmo.

É por isso que o debate sério não é “proibir religião” nem “combater crença”.
O debate sério é: como impedir o incitamento ao ódio e à violência sem esmagar liberdades?
É precisamente este equilíbrio que o Rabat Plan of Action, do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, procura orientar: não criminalizar crítica legítima, mas impor um limiar rigoroso para o que constitui incitamento real à discriminação, hostilidade ou violência.

3) A armadilha da civilização: reagir com cegueira e oferecer ao fanático a narrativa que ele deseja

O fanático quer uma guerra metafísica. Quer transformar o mundo num ringue “nós contra eles”, “fé contra civilização”, “pureza contra decadência”.
Se a resposta civilizacional generaliza e ataca uma religião inteira, faz-lhe um favor: legitima a narrativa de perseguição e dá-lhe combustível.

Por isso, o alvo correcto tem de ser cirúrgico: organizações violentas, incitadores, redes de financiamento, logística, tecnologia dual-use, propaganda.
Não é “guerra à fé”; é guerra ao terror organizado sob a caoa da fé, e em nome do sagrado.

4) O que as instituições internacionais dizem (quando são levadas a sério): prevenção + direitos + segurança

A ONU, através do seu Plano de Acção para Prevenir o Extremismo Violento, insiste numa ideia pouco espectacular, mas decisiva: não chega combater sintomas com polícia e exército; é preciso reduzir condições que alimentam radicalização (exclusão, abuso, corrupção, propaganda, fracturas sociais), mantendo o respeito por direitos humanos.
É “anti-épico”, mas é estrutural.

A Estratégia Global das Nações Unidas contra o Terrorismo reforça esta lógica em quatro pilares: enfrentar condições que conduzem ao terrorismo, prevenir e combater, reforçar capacidades dos Estados, e garantir direitos humanos e Estado de direito.
A civilização, aqui, define-se por um paradoxo: defender-se sem se desfigurar.

E a UNESCO traz uma peça que muitos regimes temem: educação para pensamento crítico, cidadania, literacia mediática, capacidade de resistir à propaganda.
O fanatismo vive da mente estreita; a educação abre janelas e retira-lhe o ar.

5) A resposta civilizacional: coluna vertebral sem barbaridade

Se a “religião do ódio” é máquina, então a resposta tem de ser engenharia.
Não basta indignação. Não basta negociação abstracta. É preciso executar medidas cumulativas:

  • Fechar o dinheiro: rastrear, congelar, cortar canais, perseguir intermediários, impor custo real às redes.
  • Fechar a logística: transporte, documentos, rotas, contrabando, “empresas-fantasma”, facilitadores.
  • Fechar a propaganda: anti-censura para os oprimidos, e desmantelamento das redes de incitamento e recrutamento.
  • Proteger dissidentes e reformistas: segurança, asilo, canais de comunicação, suporte a media livres.
  • Justiça e prova: documentar crimes, responsabilizar indivíduos, não colectivos; o terror adora impunidade.
  • Educação e inclusão: reduzir o mercado emocional onde o fanatismo vende “certeza” e “pertença”.

Isto é “mais sério” do que discursos, porque mexe no nervo: capacidade operacional.
E é mais civilizacional do que “guerra total”, porque não oferece ao extremista o prémio narrativo da vitimização generalizada.

Epílogo: o mal não precisa de Deus — precisa de homens que o vistam de sagrado

O ódio em traje religioso é, no fundo, uma falsificação: usa a linguagem do eterno para servir a fome do imediato.
Não constrói céu; constrói obediência.
Não adora Deus; adora poder.

E a civilização, se quiser sobreviver, tem de fazer uma coisa simples e difícil : recusar a anestesia da normalização e impor custo ao incitamento — antes que o século XII volte a governar o século XXI.

Referências internacionais (seleção)

Artigo da Autoria de :

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — crónica editorial
Co-autoria técnica, pesquisas e investigação de : Augustus Veritas

Quando o ódio veste a batina, a civilização só sobrevive se lhe rasgar o disfarce — com lucidez, coragem e verdade.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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