Os Democratas do Cravo e o Vírus da Manipulação
Os Democratas do Cravo e o Vírus da Manipulação
Há uma verdade que incomoda os democratas de cravo ao peito — esses bem instalados, confortáveis, ungidos por cerimónias e datas, como se a liberdade fosse um título vitalício: a manipulação não é exclusiva das ditaduras.
Apenas muda de roupa. Troca a bota pelo sapato engraxado, a censura explícita pela censura higiénica, a polícia política pelo cordão sanitário, o porrete pela gestão do discurso.
E o método é velho como o poder: reescrever a História por conveniência, seleccionar memórias, apagar factos, reduzir a verdade a “contextos”, transformar o contraditório em “extremismo”, e fazer do cidadão um espectador cansado, sentado no sofá, a mastigar indignações até que a indignação perca os dentes.
Chamam-lhe “responsabilidade”. Chamam-lhe “moderação”. Chamam-lhe “defesa da democracia”.
Mas quando um regime — seja ele qual for — começa a decidir o que é “aceitável” pensar e dizer, quando a crítica é tratada como doença e o silêncio como virtude, a democracia já está a apodrecer por dentro.
E o mais perverso é que o faz com sorriso, com boas maneiras, com slogans, com condecorações e com moral de vitrina.
O cravo não salva ninguém. O cravo é flor. E flor não substitui instituições limpas, nem justiça célere, nem transparência radical, nem limites reais ao compadrio. O cravo, quando vira álibi, torna-se ornamento do cinismo.
E o cinismo é o adubo perfeito para o autoritarismo seguinte.
Por isso, acordemos: a liberdade não é uma medalha — é um combate diário.
E quando a “democracia” começa a exigir silêncio, reverência e obediência emocional, então já não é democracia: é apenas poder a proteger-se, com cravos na lapela e medo no coração.
A manipulação é o autoritarismo em versão polida — e o povo é sempre o último a ser informado.
Quando os cravos servem de máscara ao poder, a liberdade deixa de ser festa — e volta a ser trincheira.


