A Solidariedade em Portugal: Quando o Povo Salva e os Gigantes se Calam
- Depois das cheias, o povo mobiliza-se primeiro — com trabalho, bens e pequenas doações.
- Muitos grandes grupos (nacionais e internacionais) mantêm uma presença pública discreta ou meramente comunicacional.
- O contraste torna-se moralmente visível quando instituições externas surgem com apoio concreto e expressivo.
- Referência meritória: a Fundação Aga Khan destacou-se com um gesto de apoio relevante para a reconstrução.
- Ideia central: quem mais beneficia do país deveria responder à tragédia com grandeza proporcional — em actos, não em slogans.
A Solidariedade em Portugal: Quando o Povo Salva e os Gigantes se Calam
As cheias chegam sem cerimónia: entram pelas portas como ladrões, levantam o chão, apagam memórias, deixam tomadas mortas, paredes doentes, e aquela lama — a lama é sempre a mesma: espessa, fria, humilhante. E quando a água recua, há um instante breve em que se percebe quem existe de verdade.
É nessa hora que o povo pobre aparece como um instinto antigo: com baldes, vassouras, sacos de roupa, pratos quentes, cobertores, um envelope com vinte euros, “não é muito, mas é de coração”. É nessa hora que os vizinhos se transformam em equipas de emergência e os amigos em logística improvisada. É nessa hora que Portugal se salva a si mesmo, como tem feito há décadas: com a dignidade dos que não têm quase nada — e mesmo assim dão.
O silêncio dos grandes
E é nessa hora que se torna ensurdecedor o silêncio dos grandes.
Os grandes grupos económicos — nacionais e internacionais — que operam em Portugal com a naturalidade de quem bebe de um poço inesgotável: energia, telecomunicações, retalho, banca, seguros, concessões, contratos, taxas, comissões, fidelizações. Um país inteiro convertido em cliente. Um povo inteiro convertido em fluxo de caixa.
E, no entanto, quando a casa alheia cai, esses gigantes muitas vezes não caem de joelhos — caem em silêncio.
Aparecem, quando muito, por interposta pessoa: um comunicado redigido com luvas de seda, um “estamos a acompanhar com atenção”, um “a empresa solidariza-se”, uma fotografia com colete fluorescente e sorriso calibrado, seguida de um número prudente, pequeno, polido, escolhido para não perturbar as metas do trimestre. É a solidariedade como brochura: bonita, mas sem peso.
O povo convocado — sempre
E o povo, esse, continua a ser convocado.
Sempre o povo pobre. Sempre o que trabalha e paga. Sempre o que recebe pouco e entrega muito. Sempre o que é chamado a contribuir, como se o esforço fosse uma obrigação moral dos que vivem no limite — enquanto os que acumulam têm apenas “responsabilidade social”, essa expressão que soa a perfume quando devia soar a martelo.
A gratidão que também acusa
Aqui, o contraste torna-se um espelho: quando uma instituição como a Fundação Aga Khan surge com um apoio concreto, expressivo e humano — não em palavras, mas em meios reais para reconstrução e retoma da vida — somos obrigados a dizer o óbvio com gratidão e espanto: há quem venha de fora e aja como vizinho, enquanto muitos que lucram cá todos os dias permanecem distantes, como senhorios da indiferença.
A Fundação Aga Khan merece o nosso reconhecimento público: porque, em tempos de lodo, a generosidade tem o brilho raro de uma lâmpada acesa. E, ao mesmo tempo, esse brilho ilumina o que falta aos outros — não por maldade, mas por ausência. Por atraso moral. Por cálculo.
Filantropia vs. justiça
Não se pede que empresas sejam santas. Pede-se apenas coerência moral: se o lucro é gigantesco, a resposta também tem de o ser. Não em frases. Em actos.
Porque há uma linha invisível entre filantropia e justiça. A filantropia é opcional; a justiça é dívida. E há empresas que, operando em Portugal, beneficiam de infraestruturas, de trabalhadores, de consumidores, de estabilidade social — tudo pago por todos. Quando essa estabilidade é ferida por uma tragédia, ajudar não é “caridade”: é devolver ao ecossistema humano que permite o lucro.
O teatro da “resiliência”
Mas em Portugal habituámo-nos a um teatro. O teatro do “país resiliente”. O teatro do “povo forte”. O teatro do “aguenta, aguenta!”. E esse teatro é conveniente para os grandes, porque transforma a resistência dos pobres numa política pública não escrita: se o povo aguenta, não é preciso mexer nos gigantes.
Só que há um preço.
O preço é a normalização da desigualdade moral: uns têm tudo e podem ajudar muito; outros têm pouco e ajudam sempre. E, a cada tragédia, repete-se o ritual: o povo limpa, o povo reconstrói, o povo doa, o povo consola. E os grandes… os grandes continuam a facturar. E no fim, todos voltam à “normalidade” — essa palavra que, em Portugal, muitas vezes significa apenas: “voltemos ao mesmo”.
Conclusão
Talvez esteja na hora de dizer claramente: um país não pode ser um mercado quando é para cobrar e uma aldeia quando é para salvar. Não pode ser “cliente” na factura e “família” no desastre. Não pode ser “rentável” na conta e “resiliente” no lodo.
Se há cheias, que se veja quem tem grandeza — não nos slogans, mas na presença. Porque a solidariedade verdadeira não se mede em comunicados. Mede-se em paredes levantadas, escolas reabertas, casas secas, dignidade devolvida.
E há coisas que não deviam precisar de ser pedidas. Devia ser automático: quem mais lucra, mais ajuda. Quem mais pode, mais faz. Quem mais ocupa espaço, mais sustenta.
O resto é silêncio. E o silêncio, em tempos de lama, é uma forma de abandono.
com coautoria editorial de Augustus — Fragmentos do Caos


