Pagar ao Estado por marcação: a nova comédia fiscal portuguesa
Pagar ao Estado por marcação: a nova comédia fiscal portuguesa
Portugal quer ser líder em inovação, inteligência artificial, atracção de talento e outras expressões bonitas de conferência.
Entretanto, no terreno, para resolver assuntos fiscais básicos, o contribuinte precisa de: conta, senha, validação, agendamento, re-agendamento, confirmação e fé.
É uma arquitectura de serviço inspirada na alta burocracia barroca: o cidadão quer cumprir, o sistema quer protocolo, e a solução final depende da fase da lua e da disponibilidade do botão “marcar”.
Manual satírico do contribuinte exemplar (edição nacional)
- Entrar no portal com serenidade zen.
- Descobrir que a opção certa está na secção errada.
- Ler instruções que citam normas de 1998 com interface de 2026.
- Tentar marcar atendimento para pagar a tempo.
- Perceber que o prazo fiscal é real; o horário disponível, metafísico.
- Concluir que cumprir obrigações é fácil — desde que se domine arqueologia digital.
O paradoxo fiscal em versão premium
- O Estado é inflexível para cobrar, mas flexível para atender.
- O contribuinte é presumido conhecedor de linguagem técnico-legal cifrada.
- O sistema é “digital”, mas a resolução efectiva continua a depender de peregrinação.
- A responsabilidade é sempre do cidadão, mesmo quando o labirinto é institucional.
E assim chegámos à obra-prima da administração contemporânea: para entregar dinheiro ao Estado, é preciso primeiro vencer uma prova de acesso ao próprio Estado.
A cobrança é automática; o atendimento, artesanal.
Frase-lâmina: “Num país normal, pagar imposto é dever cívico; no nosso, por vezes, é triatlo administrativo com inscrição obrigatória no portal.”
Conclusão com ironia (e urgência real)
O ridículo não está em digitalizar. Está em digitalizar sem simplificar.
Está em transformar o contribuinte em funcionário ad-hoc do Estado.
Está em chamar eficiência a um circuito onde cumprir custa tempo, ansiedade e sorte.
Se o Estado quer ser respeitado, deve começar pelo básico: cobrar com justiça, atender com dignidade, explicar com clareza e resolver sem teatro.
Até lá, a comédia fiscal continuará em cena — com bilhete pago pelo público do costume.
Fragmentos do Caos — crítica cívica com precisão democrática e satírica, para não chorar.


