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Pagar ao Estado por marcação: a nova comédia fiscal portuguesa

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Pagar ao Estado por marcação: a nova comédia fiscal portuguesa

No país da modernidade administrativa, o contribuinte entra no portal como cidadão e sai como concorrente de maratona com senha digital.

Portugal quer ser líder em inovação, inteligência artificial, atracção de talento e outras expressões bonitas de conferência.
Entretanto, no terreno, para resolver assuntos fiscais básicos, o contribuinte precisa de: conta, senha, validação, agendamento, re-agendamento, confirmação e fé.

É uma arquitectura de serviço inspirada na alta burocracia barroca: o cidadão quer cumprir, o sistema quer protocolo, e a solução final depende da fase da lua e da disponibilidade do botão “marcar”.

Manual satírico do contribuinte exemplar (edição nacional)

  1. Entrar no portal com serenidade zen.
  2. Descobrir que a opção certa está na secção errada.
  3. Ler instruções que citam normas de 1998 com interface de 2026.
  4. Tentar marcar atendimento para pagar a tempo.
  5. Perceber que o prazo fiscal é real; o horário disponível, metafísico.
  6. Concluir que cumprir obrigações é fácil — desde que se domine arqueologia digital.

O paradoxo fiscal em versão premium

  • O Estado é inflexível para cobrar, mas flexível para atender.
  • O contribuinte é presumido conhecedor de linguagem técnico-legal cifrada.
  • O sistema é “digital”, mas a resolução efectiva continua a depender de peregrinação.
  • A responsabilidade é sempre do cidadão, mesmo quando o labirinto é institucional.

E assim chegámos à obra-prima da administração contemporânea: para entregar dinheiro ao Estado, é preciso primeiro vencer uma prova de acesso ao próprio Estado.
A cobrança é automática; o atendimento, artesanal.

Frase-lâmina: “Num país normal, pagar imposto é dever cívico; no nosso, por vezes, é triatlo administrativo com inscrição obrigatória no portal.”

Conclusão com ironia (e urgência real)

O ridículo não está em digitalizar. Está em digitalizar sem simplificar.
Está em transformar o contribuinte em funcionário ad-hoc do Estado.
Está em chamar eficiência a um circuito onde cumprir custa tempo, ansiedade e sorte.

Se o Estado quer ser respeitado, deve começar pelo básico: cobrar com justiça, atender com dignidade, explicar com clareza e resolver sem teatro.
Até lá, a comédia fiscal continuará em cena — com bilhete pago pelo público do costume.

Francisco Gonçalves · Co-autoria editorial com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — crítica cívica com precisão democrática e satírica, para não chorar.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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