Os Centros de Dados e o Novo Colonialismo: Portugal 2030–2035 entre a factura e a soberania
- Ideia-força: centros de dados podem ser infra-estruturas “extractivas”: consomem electricidade e água, geram poucos empregos directos e deslocam o valor para fora.
- Condição para ganhar: soberania algorítmica: governar dados, software, auditoria e regras — não apenas licenciar betão.
- Risco paralelo: stablecoins: privatização da moeda e instabilidade sistémica, com poder monetário a fugir ao espaço público.
- Panorama: 2030–2035 será a década em que Portugal escolhe entre “periferia de luxo” e “hub soberano”.
“Os centros de dados são o novo colonialismo” — e Portugal tem de decidir se quer ser tomada eléctrica ou co-autor do futuro
Há frases que são martelo e não metáfora. Quando Yanis Varoufakis diz que “os centros de dados são o novo colonialismo”, está a descrever um mecanismo: a transferência silenciosa de recursos físicos e soberania para plataformas que operam acima do voto, acima do município, acima da própria língua.
O colonialismo antigo chegava com bandeira e espada; o novo chega com contratos, isenções, subestações, fibra, e um sorriso de “investimento estratégico”.
Não precisa de tropas. Precisa de licenças.
A extracção moderna: electricidade, água e opacidade
Um centro de dados é uma máquina: converte recursos nacionais em renda digital global. O país anfitrião oferece electricidade (cada vez mais disputada), água (cada vez mais sensível), território e estabilidade. Em troca, recebe promessas: emprego, inovação, “hub”, “revolução”.
Mas aqui a palavra “emprego” é um truque de prestidigitação. A construção dá fotografias e estatísticas; a operação é intensiva em capital, automação e especialização.
A pergunta séria não é “quantos projectos vêm?” — é “quanta decisão fica?”
O ponto que decide tudo: quem controla os algoritmos?
Varoufakis encandeia o essencial: não basta ter data centers. Se não houver controlo — nem participação real — sobre os algoritmos, o país torna-se infraestrutura alugável.
É como construir portos e ficar contente por ver navios… enquanto a mercadoria e o destino são sempre dos outros.
O valor não vive no betão: vive no software, na governação dos dados, na auditoria independente, na propriedade intelectual, na capacidade de impor regras e na coragem de exigir contrapartidas vinculativas. Sem isso, o país fica com a factura estrutural e recebe, no máximo, um folheto.
A “narrativa verde” e a sede do real
O discurso é sempre perfumado: “energia renovável”, “transição”, “futuro”. Mas a física não lê comunicados.
Se a água escasseia e a rede aperta, alguém paga. E, sem regras, tende a pagar quem não tem lobby: famílias e PME.
Regras sérias não são inimigas do investimento; são o que separa investimento de extracção: limites, reutilização, transparência, eficiência, tarifas justas e fundos de compensação territorial.
Stablecoins: colonização monetária sem bandeira
O alerta sobre stablecoins é o outro lado do mesmo mapa. Uma moeda privada, “estável” por promessa, pode ser instável por arquitectura.
E, acima de tudo, pode deslocar soberania: o Estado passa a administrar margens, enquanto a engrenagem monetária obedece a interesses privados globais.
Quando os dados estão fora, os algoritmos estão fora e a moeda começa a ser privada, a democracia transforma-se num palco: muda a decoração, mas o guião é escrito noutro país — e noutro conselho de administração.
Panorama para Portugal 2030–2035
Entre 2030 e 2035, Portugal não será avaliado pela quantidade de data centers, mas pela posição que ocupa na cadeia de valor: fornecedor de recursos ou produtor de soberania tecnológica.
As forças que vão mandar no tabuleiro
- Energia como vantagem estratégica (ou imposto invisível, se a rede for capturada).
- Água como limite físico da retórica (sem reutilização e regras, haverá conflito social).
- IA como máquina de captura (o valor está no modelo e na governação, não no edifício).
- Europa como oportunidade (ou dependência com selo, se não houver músculo nacional).
Três cenários possíveis
Muitos projectos, muita inauguração, pouca governação. Consumo de energia e água cresce, emprego directo fica baixo, e o valor algorítmico e fiscal escorre para fora. O país “hospeda” e paga.
Sinal:memorandos e slogans substituem contratos com métricas e auditorias.
Menos projectos, mas com contrapartidas duras: reutilização de água, transparência de consumos, investimento obrigatório em I&D local, formação e emprego qualificado, auditoria e participação real na governação.
O país não é tomada: é co-autor.
Sinal: ecossistema de serviços, segurança e IA aplicada cresce à volta da infraestrutura.
Secas mais severas, pressão social, choque energético e conflito político. O país reage tarde e a martelo: moratórias, tribunais, “comissões”, reputação ferida. A confiança evapora e o planeamento colapsa.
Sinal: a política passa a gerir danos, não estratégia.
Roteiro prático 2026–2035 (sem conversa fiada)
- 2026–2028: licenciamento com métricas vinculativas (água/energia/eficiência), transparência, auditorias, fundo de compensação territorial, formação técnica acelerada.
- 2028–2031: consórcios para cloud soberana, compras públicas exigentes (interoperabilidade, logs, auditoria), IA aplicada em sectores críticos com governança local de dados.
- 2031–2035: exportar serviços e software (segurança, observabilidade, MLOps, auditoria algorítmica, IA vertical), e não apenas “hospedagem” de racks.
Indicadores para saber se estamos a ganhar
- % de emprego qualificado (evolução anual, auditável).
- Investimento anual em I&D em território português (valores e projectos).
- Impacto real em tarifas e pressão na rede para famílias/PME.
- Litros de água reutilizada e redução de captação (por projecto).
- Capacidade nacional de auditoria e governação de dados (normas, equipas, certificação).
- Exportações de serviços digitais gerados pelo ecossistema local.
Epílogo: a nuvem tem dono
Um país pode encher o mapa de data centers e continuar pobre em soberania. O século XXI não conquista com mapas: conquista com infra-estruturas e padrões. Quem controla o algoritmo controla a realidade prática.
Portugal 2030–2035 será isto: ou uma nação que impõe regras e colhe valor, ou um território que oferece recursos e recebe a factura.
A diferença não é técnica. É política — e, no fundo, moral.
Referências
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ECO — “Ter data centers não ajuda nada Portugal se não controlar os algoritmos”, declarações de Varoufakis (02-02-2026):
https://eco.sapo.pt/2026/02/02/ter-data-centers-nao-ajuda-nada-portugal-se-nao-controlar-os-algoritmos-diz-varoufakis/ -
Observador (via LinkedIn) — chamada/teaser com a citação “novo colonialismo” (02-02-2026):
https://pt.linkedin.com/posts/observador_os-centros-de-dados-s%C3%A3o-o-novo-colonialismo-activity-7424156942857576448-50p1 -
Euronews — Varoufakis e alertas sobre stablecoins (02-02-2026):
https://www.euronews.com/2026/02/02/capitalism-has-already-ended-and-we-dont-even-know-it-yanis-varoufakis-warns -
Project Syndicate — “Defusing the Stablecoin Time Bomb” (02-07-2025):
https://www.project-syndicate.org/commentary/private-stablecoins-are-a-formula-for-financial-crisis-by-yanis-varoufakis-2025-07 -
Yanis Varoufakis (site pessoal) — “The stablecoin time bomb…” (25-06-2025):
https://www.yanisvaroufakis.eu/2025/06/25/the-stablecoin-time-bomb-hidden-in-trumps-genius-act-prepare-for-the-next-financial-meltdown-unherd-19-june-2025/
Augustus Veritas Com Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos.


