Fui Feliz sem Saber — A Minha Infância com Mundo (e a Biblioteca que Nasceu em Silêncio)
- Género: memória autobiográfica, lírica e reflexiva.
- Tempo: infância e juventude em Belmonte e arredores, junto à natureza e às gentes simples.
- Escola/Liceu: leitura intensa como disciplina íntima; formação de uma biblioteca pessoal.
- Ideia central: ter sido feliz “sem saber” não absolve a História — apenas explica a vida imediata.
Fui Feliz sem Saber — A Minha Infância com Mundo (e a Biblioteca que Nasceu em Silêncio)
Há confissões que parecem perigosas apenas porque são verdadeiras. Eu vou dizer isto sem adornos, com a serenidade de quem já viveu o suficiente
para distinguir memória de propaganda: fui muito feliz naquela época longínqua no Estado Novo — e nem sequer sabia.
Não é um elogio ao regime. Não é saudade de repressão. Não é tentativa de branquear a História.
É apenas isto: a felicidade que eu sentia não vinha do poder, vinha do mundo — do meu mundo concreto, imediato, táctil.
Cresci perto da natureza pura, muitas vezes longe de tudo, rodeado por pequenos povoados e pelas suas gentes simples, na sua maioria analfabetas, mas conhecedoras de uma sabedoria que não se aprende em manuais: a sabedoria do tempo, do campo, do corpo.
A liberdade que cabia numa ribeira
A partir dos 12 anos, o meu pai comprou-me uma espingarda de pressão de ar. E eu ia caçar para longe de casa,
muitas vezes à noite, muitas vezes acompanhado pelo meu amigo de infância, o Alfredo, na estação da CP de Belmonte.
Percorríamos ribeiras ao longo de muitos quilómetros, na escuridão, caçando tordos e melros, como quem aprende o mapa secreto do mundo pelo som dos passos e pelo rumor da água.
No Verão escaldante ( sim, porque naquela época já havia calor na escala dos 40 graus+), tomávamos banho na ribeira ou no rio Zêzere. Pescávamos. Ríamos. E o tempo parecia uma coisa infinita, como se a vida tivesse sido desenhada para durar.
Muitas vezes fazia também esses percursos sozinho, a pé e de bicicleta — uma das minhas grandes paixões de juventude.
E, nessa solidão saudável, eu sentia-me inteiro.
Escutar a natureza: uma escola sem quadros nem mentiras
Sempre me senti perto da natureza e sabia escutá-la. A natureza fala — mas não fala em palavras.
Fala em padrões, em cheiros, em silêncios, em mudanças subtis na luz, no vento, no comportamento dos animais, no modo como uma sombra se instala num caminho.
Isso deu-me sentidos extra. Não no sentido teatral de “superpoderes”, mas na forma real e discreta de uma atenção treinada: uma bússola interna, uma percepção do risco antes da razão, uma serenidade no escuro que muitos nunca conheceram.
Quem cresce na cidade aprende a atravessar ruas. Quem cresce na natureza aprende a atravessar o desconhecido.
A escola e o liceu: quando eu descobri outro território, feito de páginas
Mas a minha felicidade não era só feita de rios e caminhos. Havia também a escola — e depois o liceu — como um segundo mundo, mais silencioso e interior, onde eu aprendia a fazer perguntas que não cabiam na conversa do dia-a-dia.
Eu encontrava sempre tempo para ler. Ler como quem respira. Ler tudo o que me intrigava e queria entender.
A curiosidade não era passatempo: era fome.
Lia literatura e romance, sim, mas também filosofia, psicologia e as ciências sociais — sociologia, história, ideias, modos de viver e de pensar.
Fascinava-me perceber por que razão as pessoas são como são, por que razão as sociedades se organizam como se organizam, e como é que o mundo, por dentro, constrói as suas próprias prisões.
Recordo bem fins de tarde inteiros, a ler como se o tempo fosse um tecido que eu podia esticar à força de atenção.
Enquanto a luz ia baixando, eu ia acendendo outra — a das frases e das perguntas.
E foi aí, devagar, sem cerimónia, que começou a nascer a minha biblioteca pessoal.
Livro a livro, como quem empilha pequenas reservas de liberdade.
Não eram apenas objectos: eram portas.
O paradoxo que a vida ensina tarde: a felicidade não absolve a História
Só mais tarde compreendi a dimensão do tempo em que vivia. Só mais tarde percebi o peso do regime, a sombra, o que se dizia em surdina, o que se calava, o que se temia.
E é aqui que muitos se confundem: pensar que, por alguém ter sido feliz numa época, está a legitimar essa época.
Não está.
Uma infância pode ser luminosa num país politicamente escuro — porque a infância vive de proximidade, de corpo, de chão,
e, no meu caso, também de livros.
Eu fui feliz apesar do Estado Novo, não por causa dele.
A minha felicidade vinha da ausência de ruído, do espaço, do rio, do céu, da bicicleta, do risco saudável, e da leitura como forma de alargar o mundo para lá de qualquer fronteira.
O que essa felicidade fez de mim
Hoje, olhando para trás, vejo que essa vivência fez de mim aquilo que sou.
Deu-me autonomia, coragem sem arrogância, amor pela liberdade concreta e um desprezo instintivo pela mentira organizada.
Deu-me um sentido de orientação que não se aprende em sala nenhuma: o sentido de que o mundo é maior do que as palavras do poder — e que a dignidade começa no acto simples de estar acordado.
E, entre a ribeira e a biblioteca, aprendi duas coisas fundamentais: a escutar o real e a interrogar o humano.
Epílogo: memória inteira, sem medo
Digo isto sem vergonha: fui feliz, sim. E nem sequer sabia.
Porque a felicidade não me foi oferecida por nenhum governo.
Foi-me oferecida pelo mundo: pela água fria da ribeira, pelo sol intenso do Verão, pelo silêncio da noite, pelo caminho longo, pelos pedais, pela amizade e pelos livros — essa outra natureza, feita de linguagem.
A História julga regimes. E deve julgar.
Mas a memória julga o vivido. E eu não renego o vivido.
Renego apenas a ideia de que a verdade tem de ser amputada para caber em slogans.
A minha infância foi um país dentro do país: um território livre.
E talvez seja por isso que, ainda hoje, quando o mundo tenta impor-me ruído e obediência, eu continuo a procurar o mesmo norte: o do silêncio que diz a verdade — e a página que a fixa para sempre.
Francisco Gonçalves
in ‘Memórias de uma vida’
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos por Augustus Veritas.
À memória dos meus pais
Foram o meu primeiro chão e o meu primeiro silêncio.
Sem discursos, ensinaram-me o essencial:
o sentido do caminho, a dignidade do gesto
e a liberdade de pensar.
Tudo o que sou começa neles.


