Quando Todos Mandam, Ninguém Manda: Portugal e o Teatro da Calamidade
- Problema: em cheias, incêndios ou sismos, Portugal cai recorrentemente em comando difuso e rivalidade institucional.
- Paradoxo: há heróis no terreno, mas excesso de chefias e interferência política; “coordenação” sem autoridade real.
- Tese: em calamidade nacional deve existir comando único efectivo, com cadeia clara e logística robusta.
- Proposta: activar comando operacional militar em nível máximo de emergência, integrando bombeiros e Protecção Civil numa estrutura única e auditável.
Quando Todos Mandam, Ninguém Manda: Portugal e o Teatro da Calamidade
Portugal é um país com uma particularidade quase literária: quando a tragédia chega, aumenta o número de chefes por metro quadrado.
É como se o incêndio, a cheia ou o sismo não fossem apenas uma crise — fossem um palco. E, num palco, toda a gente quer a fala principal.
O resultado é conhecido, repetido, documentado pela experiência — essa professora que ensinou sempre e foi sempre ignorada: todos mandam, ninguém manda. E quando ninguém manda, ninguém faz o que tem de ser feito a tempo.
O país da “coordenação” sem autoridade
A palavra “coordenação” tornou-se o grande eufemismo nacional. Coordena-se muito. Articula-se ainda mais. Fazem-se reuniões, briefings, conferências, pontos de situação. Mas, em crise real, coordenação sem autoridade é uma bicicleta sem rodas: bonita na fotografia, inútil na estrada.
Uma calamidade não é um congresso. É um colapso parcial do normal. E, quando o normal colapsa, só resta uma coisa que salva vidas: comando claro, decisão rápida e execução disciplinada.
Bombeiros: heróis no terreno, fragmentação no sistema
Dito com justiça: os bombeiros são, muitas vezes, a linha fina entre a vida e a cinza. Há coragem, sacrifício, mãos queimadas e noites sem sono.
Mas o sistema é fragmentado: corporações, hierarquias, rivalidades, cadeias paralelas. E numa crise nacional, a fragmentação é veneno.
Voluntarismo é nobre — mas não substitui uma estrutura única de comando quando o país está a arder.
A tragédia não respeita galões civis nem susceptibilidades institucionais.
O medo político de mandar
Há um medo que paralisa mais do que a chuva: o medo de decidir. Em Portugal, muitos responsáveis políticos preferem a ambiguidade, porque a ambiguidade não deixa assinatura. E quem não assina não paga. Assim, a decisão dissolve-se num coro de “é complexo”.
Só que em calamidade, “é complexo” é uma forma elegante de dizer: não houve comando.
E a ausência de comando, em terreno hostil, não é um detalhe administrativo. É uma máquina de produzir vítimas.
Porque as Forças Armadas fazem sentido (sem “militarismo”)
Falar em Forças Armadas aqui não é nostalgia de botas. É reconhecimento de competência operacional.
As Forças Armadas têm aquilo que falta ao modelo português nas horas negras:
- Cadeia de comando clara e inquestionável;
- Treino para cenários de caos e ruptura de comunicações;
- Logística real: transporte, engenharia, comunicações, planeamento por fases;
- Cultura de decisão sob pressão: decidir e assumir.
Em emergência máxima, não precisamos de mais uma mesa redonda; precisamos de um comando único que não se desfaça ao primeiro directo televisivo.
Um modelo adulto para a calamidade (simples e audível)
A solução não é inventar uma nova sigla. É aceitar uma regra de ferro, activada por níveis:
- Comando operacional único sob estrutura militar (Estado-Maior/Comando Conjunto), com regras pré-definidas.
- Bombeiros integrados na cadeia táctica — continuam heróis, mas com comando único e prioridades claras.
- Protecção Civil como interface civil: informação, ligação a autarquias, logística civil, comunicação com população.
- Políticos fora do terreno: decidem no início (activação do nível), comunicam com sobriedade e não interferem na operação.
Isto não é autoritarismo. É o mínimo de respeito pela vida humana. A democracia não se mede pela quantidade de chefias em conferência de imprensa; mede-se pela capacidade de salvar cidadãos quando a terra treme e o fogo corre.
O verdadeiro escândalo: aprendermos sempre depois do funeral
O mais triste não é falharmos uma vez. É falharmos com memória. É repetir o mesmo teatro: tragédia, ruído, promessa, esquecimento.
Portugal não falha por falta de inteligência; falha por excesso de conversa e medo de autoridade clara.
Uma calamidade exige uma frase simples, dita sem tremor: “A partir de agora, há comando único. Quem manda responde. Quem executa é protegido. Quem interfere é afastado.”
Epílogo: a urgência não negoceia
A urgência não negoceia. Não espera por consensos. Não respeita egos. Se Portugal quer deixar de ser um país de chefias e começar a ser um país de acção, tem de aceitar uma evidência: na hora da calamidade, a única coisa mais perigosa do que o fogo é a indecisão.
E quando todos mandam, a tragédia agradece — porque, em Portugal, a tragédia já conhece o caminho de cor.
Francisco Gonçalves Com Augustus Veritas
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos.


