Banalidade do mal extremo,  Burocracia,  Manipulação da verdade,  Nepotismo,  País de Desigualdades e Injustiça

A Verdade que Incomoda: Memória Vivida, Regime Julgado e a Pobreza que Ficou

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BOX DE FACTOS
  • Tema: distinção entre memória pessoal e julgamento político do Estado Novo.
  • Posição: rejeição da propaganda simplista — do passado e do presente.
  • Comparação central: pobreza e desigualdade antes e depois de 50 anos de democracia.
  • Tese: a verdade histórica não cabe em slogans e continua a ser temida.

A Verdade que Incomoda


Memória Vivida, Regime Julgado e a Pobreza que Ficou

Não absolvo o regime. Mas também não aceito a mentira confortável. A minha memória não é propaganda — é vivência. E a verdade não tem medo de ser complexa.

Vou ser directo, porque a honestidade exige clareza.
Ao contrário do que a propaganda actual quer fazer crer, o Estado Novo não foi uma ditadura extrema no quotidiano de todos.
Foi um regime autoritário, sim. Repressivo, sim. Com censura, polícia política e linhas vermelhas claras.
Mas a vida real não era um campo de concentração permanente — e fingir que era é substituir a História por caricatura.

O regime era, no trato diário, muitas vezes cordato. O ensino era sério e muito exigente.
Quem queria (e podia, claro) estudar, ler e pensar — como eu quis, desde cedo — encontrava espaço para o fazer, sobretudo na infância e juventude.
Eu pensava por mim sem problemas. Lia sem problemas, salvo a dificuldade em obter importantes obras proibidas pela censura. Eram as regras e aprendia-se a contorna-las, como eu o fiz.
Questionava, ainda que com alguns cuidados e muitos e silêncios.

A repressão existia — mas era selectiva

Não nego o óbvio: havia repressão. Havia medo. Havia cinzentões.
O regime detestava sobretudo “ideias comunistas” e tudo o que ameaçasse a sua ordem.
Quem atravessava certas linhas era vigiado, silenciado, preso, torturado e exilado.

Mas também é verdade que muitos viveram a sua vida sem contacto directo com essa repressão, sobretudo em meios rurais, periféricos, longe dos centros políticos.
Isto não absolve o regime nem a história — explica a sua eficácia.
Uma ditadura não precisa de bater em todos; basta bater em alguns e ser temida por todos.

Pobreza ontem e hoje: o paradoxo que ninguém quer enfrentar

Havia pobreza. Muita.
Mas a pobreza era também o sinal dos tempos, de um país atrasado, agrícola, isolado, pobre como quase todos os países pobres da época.
Havia ricos e pobres — como sempre houve. E com isso nunca quis perceber quem nunca entendeu que não deveria continuar assim.
A pobreza é um mal extremo da humanidade e devia, deve, e deverá ser sempre combatida.

O que me intriga hoje — e incomoda — é isto:
passaram-se mais de 50 anos de democracia, de “civilização”, de fundos, de promessas, de discursos… intermináveis… e Portugal continua a ter milhões de pobres.

A pobreza não desapareceu.
A desigualdade não desapareceu.
Apenas mudou de linguagem.

A verdade continua a ser temida

Ontem, a verdade era temida pelo regime.
Hoje, é temida pelo sistema.
Não se proíbe — dilui-se.
Não se censura — ridiculariza-se.
Não se prende – perde-se o emprego e isola-se.

A democracia formal existe.
Mas a verdade continua desconfortável.
Quem a diz é rotulado, afastado, caricaturado.
O medo mudou de uniforme, não de função.
O policiamento deixou de ser feito por agentes à paisana, mas, pelo vizinho, o chefe ou o colega de emprego.

Memória não é absolvição

Dizer que fui feliz não é defender o regime.
É defender a minha verdade.
Uma infância vivida na natureza, na escola exigente, nos livros, no silêncio, não legitima a repressão — apenas mostra que a vida humana é mais complexa do que os cartazes ideológicos querem fazer crer.

A História deve julgar os regimes.
Mas não deve exigir que as pessoas mintam sobre o que viveram para caberem numa narrativa confortável, de um sistema de domesticação fofinho.

Epílogo: contra a mentira simples

Não quero voltar atrás. Nunca quis.
Quero sempre ir para a frente, mas com verdade.
E a verdade é esta: tivemos um regime autoritário, tivemos pobreza, tivemos repressão — e hoje temos democracia, mas continuamos com pobreza,
desigualdade e medo de dizer o que não convém.

A propaganda mudou de sinal, mas continua propaganda.
E eu recuso-me a trocar uma mentira antiga por uma mentira moderna.

A verdade não absolve.
Mas liberta.

Os cinzentões não morreram — mudaram de fato

Há uma imagem que nunca me saiu da memória, desde muito jovem : a dos cinzentões.
Não falo apenas de pessoas; falo de um tipo humano. O homem do “não se meta nisso”, do “isso não convém”, do “isso não se diz”, do “com quem pensa que está a falar”…
O funcionário da sombra, o pequeno zelador da ordem, o moralista do medo. No Estado Novo, existiam — e a sua função era simples: instalar o receio para que a repressão não tivesse de aparecer todos os dias.

E aqui está a parte que mais dói: hoje continuamos a tê-los.
A democracia trouxe direitos formais, trouxe voto, trouxe pluralismo — mas não extinguiu o instinto nacional de vigilância mansa.
O cinzentão contemporâneo raramente usa farda; usa procedimento, usa regulamento, usa carreira, usa partido, usa rede, usa
formulários em computador.
Não precisa de proibir: basta atrasar, complicar, silenciar por cansaço.

Antes havia censura explícita. Hoje há outra forma: ruído.
Afoga-se a verdade em polémicas pequenas, em indignações instantâneas, em distrações contínuas,.. em futebol, em Fátima e fado.
Antes prendia-se quem falava demais; agora ridiculariza-se, isola-se, retira-se o chão económico, fecha-se a porta do emprego, etiqueta-se o indivíduo como “extremista”, “ressabiado”, “inconveniente” , “mau feitio”.
A punição deixou de ser um carimbo; passou a ser uma névoa que corrói devagar.

E é por isso que a verdade continua a ser temida: porque continua a ser perigosa.
Não para o povo — para o sistema.
Ontem, o poder temia “ideias comunistas”; hoje, teme qualquer ideia que retire a máscara ao teatro, qualquer lucidez que exponha a mediocridade organizada, qualquer frase que lembre que uma democracia não é um ritual de quatro em quatro anos, mas uma vida com dignidade, justiça e responsabilidade.

Não quero absolver o passado, nem idolatrar o presente.
Quero apenas recusar a mentira simples. A História não cabe em cartazes.
Tivemos cinzentões antes — e temos cinzentões agora.
Mudaram as palavras, mudaram os métodos, mudaram os factos de vestuário.
Mas o mecanismo é o mesmo: instalar medo suficiente para que a liberdade se auto-censure.

E se há um dever que não prescreve, é este: não deixar que o cinzento se torne norma.
Porque um país pode sobreviver à pobreza material; mas quando começa a temer a verdade, entra numa pobreza mais funda — a pobreza moral e de espírito em que hoje vivemos.

E não há nada pior, que eu deteste: falsos e verdadeiros profetas e insidiosos e pérfidos moralistas.

Eu nunca os absolvi, nem absolvo (a todos eles), e estou certo que a história também não o fará.

Por : Francisco Gonçalves
“in” ‘memórias de uma vida vivida’
Co-autoria editorial de Augustus Veritas para o Fragmentos do Caos.

Sempre abominei a mentira torpe, os moralistas insidiosos, os falsos profetas — e até os verdadeiros quando se enamoram do poder.

Desconfio de quem fala em nome do bem com a mão pousada na alavanca da autoridade, porque o exercício abjecto do poder raramente se anuncia: vem mascarado de virtude, de ordem e de “salvação”. Prefiro a verdade imperfeita à mentira bem-intencionada, prefiro o erro assumido à moral usada
como arma — porque nada corrompe mais depressa do que a certeza de estar certo e o prazer de mandar. Cito Camões “..oh vã glória de mandar”.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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