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A Matemática da Misericórdia: 1.075€ ‘afinal’ vezes 12 — e a tempestade que não espera por correcções

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BOX DE FACTOS
  • Montante: apoio de 1.075€ para agregados em situação de carência pode ser mensal e pago até 12 meses (máximo 12.900€/ano), segundo a comunicação governamental corrigida.
  • Âmbito: dirigido a situações de carência/perda de rendimentos, com avaliação e critérios (via Segurança Social).
  • Ruído: houve “correcção” pública entre Governo/Ministério — no exacto momento em que as vítimas precisavam de certezas.
  • Tese: numa calamidade, a falta de comando e clareza é a segunda tempestade — e essa é fabricada em gabinete.

A Matemática da Misericórdia: 1.075€ “afinal” vezes 12 — e a tempestade que não espera por correcções

Em Portugal, o desastre chega com chuva, vento e lama. A resposta oficial chega depois — em prestações, em tectos, em notas explicativas… e em “afinal”.
A tempestade derruba paredes. O Estado derruba frases.

Há uma coisa fascinante na governação portuguesa: a capacidade de transformar um apoio em equação e uma equação em propaganda.
A fórmula é simples: diz-se um número, deixa-se o país discutir, e depois anuncia-se o mesmo número com outro penteado.
O penteado do dia chama-se “Afinal pode ir até 12.900 euros num ano”.

É uma frase bonita. Tem aquele brilho de “solução robusta”. Só que, como quase tudo o que brilha em gabinete, depende do ângulo da luz.
Porque o “até 12.900” nasce de uma operação aritmética, não de um milagre: 1.075 euros por mês durante 12 meses.
Um “até” multiplicado por um “se”.

O truque do “até”: o país dos tectos e dos rodapés

O “até” é o santo padroeiro da comunicação pública: protege o governante de prometer, enquanto permite ao título sugerir.
“Até” significa: pode ser tudo… ou pode ser quase nada, consoante critérios, avaliações, provas, prazos, formulários e a disponibilidade do próprio sistema.

Em calamidade, as pessoas não precisam de “até”. Precisam de três coisas indecentemente simples: quanto, quando e como.
Em Portugal, dão-lhes um quarto elemento: quem corrigiu quem.

“Montenegro corrige o Ministério”: a segunda tempestade

O detalhe mais corrosivo não é o montante. É o método.
Em plena crise, com pessoas a tentar recuperar o chão, o país assiste a um espectáculo de governo contra governo: um ministério diz uma coisa, o líder corrige, e a população fica com o manual de instruções partido em duas páginas.

Há um princípio básico de Protecção Civil (e de decência): em emergência, a comunicação tem de ser unívoca.
Se não for, multiplica o pânico, atrasa decisões e cria ressentimento. A lama entra pela porta; a confusão entra pela televisão.

A moral da história: calamidade não é concurso de pobreza

Outra subtileza: o apoio é apresentado como resposta à calamidade, mas aplicado como se fosse um teste de carência.
E isto é uma inversão moral que dói.

Uma calamidade não é uma tese sobre pobreza estrutural — é perda súbita.
Quando uma tempestade arranca telhados e dignidades, o Estado não devia entrar com uma lupa de suspeição.
Devia entrar com uma regra de protecção imediata, e só depois afinar o resto.

O Estado em modo “PowerPoint”

É aqui que Portugal se revela: somos o país onde o Governo comunica como quem apresenta slides: uma “medida”, um “tecto”, um “afinal”, um “pacote”, um “plano”, um “ponto de situação”.
E no fim, a vida real continua sem telhado, sem móveis, sem carro, sem escola, sem rotina, sem paz.

Não se reconstrói uma casa com manchetes.
Não se devolve estabilidade com “correcções”.
E não se recupera confiança quando a primeira resposta pública é uma confusão aritmética.

O que seria adulto (e por isso raro)

  • Uma mensagem única (uma voz, um documento, uma linha telefónica funcional).
  • Pagamentos rápidos (48–72 horas) para necessidades imediatas, sem labirinto inicial.
  • Transparência sobre critérios e prazos (sem “até” como religião).
  • Uma fase dois para reconstrução real (obras, bens essenciais, apoio técnico e fiscalização).

Até lá, ficamos com o folclore administrativo: a tempestade destrói e o Estado… afinal, corrige.

Referências

  1. Observador (chamada/nota sobre a correcção e o cálculo do “até 12.900€/ano”):
    https://www.threads.com/%40observador/post/DUTS2w1DJXp
  2. Renascença (explicador sobre apoio a famílias carenciadas e pagamento até 12 meses):
    https://rr.pt/noticia/amp/explicador-renascenca/2026/02/02/tempestade-kristin-que-apoios-o-governo-vai-dar-as-vitimas/457791/
  3. Portal do Governo (comunicado MTSSS sobre medidas e enquadramento dos apoios):
    https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/comunicado?i=mtsss-concretiza-apoios-extraordinarios-a-familias-empresas-e-ipss-afetadas-pela-tempestade-kristin
  4. Doutor Finanças (síntese dos apoios às famílias e habitação, com explicação de medidas):
    https://www.doutorfinancas.pt/vida-e-familia/quais-os-apoios-para-as-familias-afetadas-pela-tempestade-kristin/

Augustus Veritas Com Francisco Gonçalves
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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