A Logística — a Deusa Oficial do Estado Português
- Frase do dia: “Geradores europeus não fariam diferença; a nossa dificuldade é a logística.”
- Tradução simultânea: “Há soluções, mas nós não chegamos lá… porque… bom… porque não.”
- Estado da Nação: eficiência na desculpa, lentidão na acção.
- Unidade de medida oficial: 1 Logística = 1 ano de atraso + 3 conferências de imprensa.
A Logística — a Deusa Oficial do Estado Português
Há países que têm ministérios. Portugal tem incantações.
Em vez de planos, há mantras. Em vez de execução, há explicações.
E quando a coisa aperta — quando o país arde, quando falta isto ou aquilo, quando as sirenes cantam mais alto do que os discursos — surge a palavra mágica, a senha sagrada, o “abracadabra” do Estado contemporâneo: LOGÍSTICA.
A logística como destino (e como álibi)
“Geradores europeus não fariam diferença; a nossa dificuldade é a logística.”
Repare-se na elegância: é a mesma frase que um marinheiro diria ao ver um barco a afundar-se — “Bóias não fariam diferença; o nosso problema é o mar.”
O mar, esse grande conspirador hídrico. A logística, essa entidade metafísica.
Em Portugal, a logística não é uma área de gestão. É um fenómeno atmosférico.
Cai do céu, entra nos ossos, prende os camiões, assusta os formulários, e faz com que tudo o que é “possível” em teoria se torne “impossível” na prática.
Manual de uso da palavra “logística” (para ministros principiantes)
A palavra “logística” serve para tudo. É uma ferramenta multiusos, como um canivete suíço, mas sem lâmina — só com desculpas. Exemplos:
— Por que não chegaram os meios?
Porque a logística.
— Por que não há resposta rápida?
Porque a logística.
— Por que não havia plano?
Porque a logística impede o pensamento de chegar a tempo.
— Por que não contrataram antecipadamente?
Porque a logística, essa senhora recatada, não gosta de previsões.
E pronto. Em 30 segundos, o assunto fica resolvido: não no terreno, claro — mas na televisão.
É o que interessa: o país pode arder, desde que a frase seja bem passada a ferro.
A hierarquia nacional: primeiro o palco, depois a aldeia
O mais comovente é ver como a logística se torna, subitamente, um deus maior do que o sofrimento.
Há sempre um microfone a funcionar, um carro oficial a tempo, uma comitiva pronta, uma selfie institucional com ar grave e sobrancelha preocupada.
Para isso, a logística é uma atleta olímpica.
Mas para levar o essencial onde é preciso — aí, a logística transforma-se numa tartaruga existencialista, que recita Camus enquanto caminha em círculos:
“Se eu levar o gerador, terei de assumir que havia solução; e isso é um peso moral.”
O verdadeiro produto nacional: a desculpa premium
Há na governação portuguesa uma indústria avançada: a desculpa premium.
É polida, é sonora, tem aquela gravidade de quem leu três relatórios e viveu para contar.
É uma desculpa com certificação europeia, classe energética A++, capaz de aquecer a sala de imprensa inteira.
E a logística? A logística é o rótulo. O selo. A “denominação de origem controlada” da irresponsabilidade: não foi falta de meios — foi o cosmos administrativo a impedir a deslocação.
Epílogo: um país que precisa de geradores… e de vergonha
O mais triste — e é aqui que a ironia se transforma em cinza — é que a frase não é só ridícula: é uma confissão.
Confessa que, perante a urgência, o Estado não tem nervo.
Tem vocabulário.
E se um dia a História fizer um museu desta época, a peça central não será um capacete de bombeiro nem um mapa de calamidade.
Será uma placa dourada com a inscrição: “A nossa dificuldade é a logística.”
E ao lado, a legenda em letras pequenas: “Aqui jaz o país que confundiu governação com narração.”
E o maior incómodo é serem capazes de proferir estas leviandades sem se rirem, nem serem imediatamente demitidos (as)!
Crónica satírica para o Fragmentos do Caos — onde a realidade, por vezes, pede desculpa por existir.
Coautoria humana: Francisco Gonçalves · Coautoria simbólica: a Logística (sempre ausente, mas sempre citada).
O País onde o Pensamento Não Chega a Tempo
No Governo de Portugal, a inteligência tirou férias — e, ao que parece, deixou a chave na recepção do hotel.
Ficou em seu lugar um estagiário chamado “Desculpa”, assistido por duas secretárias:
“Complexidade” e “Logística”.
E assim se governa: quando o país pede acção, recebe um comunicado; quando pede soluções, recebe uma explicação;
quando pede futuro, recebe um talvez.
A tragédia é real — mas a encenação é tão perfeita que já nem sabemos onde acaba o palco e começa a aldeia.
Um dia, quando a História perguntar “o que falhou?”, haverá quem responda com solenidade:
“Não falhou nada… só a inteligência é que estava de férias.”
– Francisco Gonçalves (2026)
O disparate saiu à rua, vestiu fato escuro, gravata discreta e foi nomeado ministro.


