A Avença do Vazio: 25.000 euros por mês e o país sem relatórios
- Notícia: em tribunal, um ex-secretário de Estado dos governos de José Sócrates confirmou uma avença mensal de 25.000 euros com uma empresa ligada a Carlos Santos Silva.
- Forma: alega prestação de aconselhamento verbal com base em fontes abertas, sem produção de relatórios ou entregáveis formais.
- Impacto: mesmo sem julgamento moral imediato, a combinação valor elevado + informalidade + ausência de documentação é um gatilho de desconfiança pública.
- Questão central: numa democracia, o que não deixa rasto não pode ser auditado — e o que não pode ser auditado corrói a confiança.
A Avença do Vazio: 25.000 euros por mês e o país sem relatórios
Um país pode habituar-se a tudo. Até ao absurdo. Até ao escândalo em modo repetição. Até à ideia de que a opacidade é um clima, como a chuva: inevitável, “faz parte”, “sempre foi assim”.
Mas há notícias que não são apenas notícia — são radiografias. E esta, tal como foi relatada, é uma dessas radiografias: uma avença mensal de 25.000 euros, confirmada em tribunal, por uma prestação de serviços sem relatórios, sem entregáveis, sem papel.
A primeira tentação do leitor é escolher um lado e arremessar pedras. Eu prefiro outro gesto: abrir o capô e olhar para o motor. Porque, mesmo antes de qualquer juízo penal, há um facto cultural que dói: quando o dinheiro circula sem rasto, a democracia perde densidade.
O triângulo que fabrica desconfiança
Em consultoria pode haver valores elevados, sim. O mercado existe. O risco existe. O conhecimento especializado existe. Mas há um triângulo que, em democracia, é dinamite:
- Valor elevado (25.000 euros por mês não é “trocos de café”; é arquitectura de poder),
- Canal informal (aconselhamento verbal, encontros, conversas),
- Ausência de documentação (sem relatórios, sem notas técnicas, sem registo de trabalho).
Mesmo que alguém jure pela alma dos avós que tudo foi legítimo, este triângulo produz um efeito inevitável: o cidadão comum pergunta “o que se comprou, afinal?”.
E quando a resposta é “conversas”, o país inteiro percebe que a verdade fica reduzida a uma questão de fé.
“Fontes abertas”: a frase que não prova nada
A expressão “fontes abertas” é, em si, neutra. Pode significar trabalho sério: recolha, análise, interpretação, contextualização. Pode significar inteligência competitiva legítima.
Mas, sem entregáveis, é apenas uma frase.
Porque consultoria defensável tem sempre qualquer coisa que se pode mostrar — nem que seja um memorando, uma síntese, uma grelha de risco, um conjunto de bullet points, uma cronologia.
Quando não há nada, nem sequer “o mínimo dos mínimos”, o contrato deixa de ser serviço e passa a ser narrativa.
A porta giratória: a zona vermelha do “depois do Governo”
Há países que tratam o pós-governação como uma zona de risco. Criam períodos de nojo, regras de transparência, escrutínio real.
Em Portugal, a porta giratória é muitas vezes uma porta de serviço: discreta, lateral, sem câmara.
Quando um ex-governante entra numa avença alta com actores ligados a processos mediaticamente sensíveis, a percepção pública não precisa de prova criminal para se formar: a percepção pública funciona por padrão, por repetição, por memória.
E o padrão é este: o poder sai do Estado e entra em avenças.
O problema maior: a impossibilidade de auditoria
A democracia vive de uma palavra que parece pequena, mas é gigantesca: auditabilidade.
A capacidade de verificar. De controlar. De reconstituir.
Sem documentação, não há auditoria.
Sem auditoria, não há responsabilização.
Sem responsabilização, não há confiança.
E, sem confiança, o Estado torna-se uma peça de teatro com bilhetes pagos pelo contribuinte: as falas mudam, os actores mudam, mas o enredo é sempre o mesmo — um enredo onde o cidadão é figurante.
A nota institucional: quando entra a Justiça na fotografia
O detalhe de a pessoa em causa ser hoje juiz, tal como foi referido na notícia, não deve ser usado como arma de linchamento.
Mas deve ser lido como sinal de alarme institucional: a Justiça precisa de ser imparcial e também parecer imparcial.
A aparência não é cosmética — é cimento. Sem ela, o edifício racha.
Um país que normaliza avenças nebulosas e depois pede “confiança nas instituições” pede ao povo um milagre semanal.
O que devia existir (e quase nunca existe): métricas e rastos
Se um contrato de consultoria é legítimo, então não teme luz. E se não teme luz, devia conter:
- Âmbito e objectivos claros,
- Entregáveis mínimos (relatórios, notas, sínteses, cronologias),
- Registo de reuniões e temas (nem que seja por acta breve),
- Justificação de preço (critérios, benchmarking, risco),
- Auditoria independente quando há proximidade a poder político.
Sem isto, não é “consultoria moderna”. É um ritual antigo: o país paga e depois pede desculpa por duvidar.
Epílogo: o país do verbal
Portugal tem uma doença crónica: troca documentos por conversas, regras por improviso, transparência por confiança cega.
E quando o dinheiro se torna verbal, a verdade torna-se um fantasma.
Uma democracia adulta não se governa com “eu disse ao almoço”. Governa-se com rasto, com prova, com método.
O resto é literatura — e nós já temos literatura a mais e Estado a menos.
Referências
-
SIC Notícias — peça sobre o depoimento em tribunal e a avença mensal (03-02-2026):
https://sicnoticias.pt/especiais/operacao-marques/2026-02-03-ex-secretario-de-estado-de-socrates-revelou-em-tribunal-que-recebia-25-mil-euros-por-mes-por-informacoes-aaa6db9f -
Público (via publicação no LinkedIn) — chamada sobre “ex-governante” e “25 mil euros por mês” (03-02-2026):
https://pt.linkedin.com/posts/publico_ex-governante-confirma-ter-recebido-25-mil-activity-7424508449138491410-c9t9 -
SIC Notícias — arquivo temático “Operação Marquês” (contexto e enquadramento histórico):
https://sicnoticias.pt/especiais/operacao-marques/
Francisco GonçalvesCom Augustus Veritas
Co-autoria editorial para o Fragmentos do Caos.


