O ‘Ordenado do Mês Passado’: A Frase Que Expõe o Estado-Aviso
BOX DE FACTOS
- Em contexto de calamidade, o Governo anunciou apoios e mecanismos de resposta.
- Persistem atrasos e fragilidades na resposta imediata no terreno, segundo relatos e debate público.
- Uma frase atribuída a um membro do Governo (“usem o ordenado do mês passado”) gerou indignação pela falta de empatia.
O “Ordenado do Mês Passado”: A Frase Que Expõe o Estado-Aviso
Tem de oferecer telhado. E já.
Há frases que não são “infelizes”. São reveladoras.
Não tropeçam na língua: tropeçam na moral.
E quando, em plena calamidade, se sugere às vítimas que “usem o ordenado do mês passado” até chegarem os apoios, a frase não é apenas absurda — é uma radiografia do regime.
O país real não vive no Excel
A frase parte de uma fantasia administrativa: a de que existe sempre uma almofada financeira “guardada” num gavetão invisível chamado “mês passado”.
Como se a renda não tivesse sido paga.
Como se a prestação da casa não tivesse sido debitada.
Como se a luz, a água e o supermercado aguardassem, pacientemente, por autorização do Governo para existir.
A maioria das famílias não tem “ordenado do mês passado”.
Tem contas do mês passado.
E do mês actual.
E do próximo.
A calamidade não é um inconveniente: é um dever do Estado
Em calamidade, há uma linha que separa civilização de improviso: a presença efectiva do Estado.
Não por comunicado. Não por “linha”. Não por “programa”.
Mas por acção física, imediata e mensurável: telhados provisórios, limpeza, protecção, logística, rapidez.
Quando um governante responde com uma frase de bolso, está a dizer ao país uma coisa terrível: “O vosso sofrimento é um problema privado; o nosso papel é comentar e cobrar impostos, ‘doa a quem doer’.”
A indústria do anúncio
Portugal tornou-se especialista num ritual: primeiro há a tragédia; depois o anúncio do “pacote”; a seguir a conferência; e finalmente o atraso — sempre com a esperança de que o tempo canse a indignação.
Mas a água não espera.
A chuva não negocia.
O frio não adia.
E um telhado em falta não se resolve com comunicação — resolve-se com madeira, mão-de-obra e presença.
A frase que devia ter custado um cargo
Há países onde uma frase assim termina uma carreira política no mesmo dia.
Não por “politicamente correcto”.
Mas por um princípio básico: quem governa não pode ser incapaz de compreender o que significa perder tudo.
O problema não é apenas falta de empatia.
É a normalização de um Estado que se habituou a falhar e a tratar o cidadão como quem pede um favor.
Conclusão: o Estado que aconselha em vez de agir
A frase do “ordenado do mês passado” ficará — não pela esperteza, mas pela crueldade involuntária.
É o tipo de frase que marca uma época: a época em que o Estado deixou de ser escudo e passou a ser comentador.
E quando o Estado, perante a calamidade, oferece conselhos financeiros, o país aprende a lição mais perigosa de todas: estamos sozinhos.
Com Augustus Veritas
Fragmentos do Caos — onde o telhado vale mais do que o comunicado.


