A Lei de Veludo e o Povo de Lixa
- O tema: dívidas elevadas ao Estado e um mecanismo legal de “recomeço” (exoneração do passivo restante) a gerar choque público.
- O nó moral: quando a lei parece severa para o pequeno e indulgente para o grande, a confiança pública racha.
- Nota essencial: ser arguido não é ser condenado — a crítica aqui incide no sistema e na desigualdade de consequência.
- Questão central: as salvaguardas do regime são aplicadas com o mesmo rigor que o Estado exige ao contribuinte comum?
- Resultado: cinismo, abstenção, raiva — não por falta de civismo, mas por instinto de sobrevivência.
Em Portugal, a justiça tem dois tecidos: um é lixa, outro é veludo — e quase sempre sabemos a quem toca qual.
A Lei de Veludo e o Povo de Lixa
Em Portugal, a justiça tem dois tecidos: um é lixa, outro é veludo. E o problema não é existirem dois — é quase sempre sabermos antecipadamente a quem toca qual.
A notícia entra como pedra num copo de água: um cidadão lê números gigantes, lê “dívidas ao Estado”, lê “exoneração do passivo restante”, lê “três anos”, lê “pensão”, e sente uma coisa simples e devastadora: desigualdade de consequência.
Antes de mais, uma nota que, numa democracia séria, não se pode rasgar: ser arguido não é ser condenado. A crítica que aqui se escreve não é uma sentença — é um retrato do sistema quando a sua simetria falha, ou parece falhar, aos olhos do povo.
O “recomeço” que, nalguns casos, soa a truque
A lei prevê mecanismos de segunda oportunidade — e isso é civilizado. O “fresh start” existe para evitar que alguém fique condenado a uma miséria perpétua por dívidas impossíveis. Em casos comuns, essa lógica é humana, económica e até necessária.
Mas quando o país vê a mesma ferramenta aplicada em cenários de grande escala — com dinheiro público, com processos mediáticos e com valores que uma vida inteira de trabalho não paga — o cidadão já não lê “técnica jurídica”. O cidadão lê “ritual de imunidade”.
O Estado, duro com o fraco, zen com o forte
A ironia é quase insuportável: o Estado, tão rápido a ser inflexível com quem falha uma prestação, aparece subitamente como um sábio paciente quando a soma tem oito ou nove zeros. E isto não nasce de conspiração; nasce de algo mais banal e mais perigoso: a facilidade.
Ser duro com o fraco é fácil. Ser duro com o forte exige estrutura, persistência, técnica, coragem e, sobretudo, vontade de ferir interesses instalados. E há décadas que o país suspeita — com razões acumuladas — de que essa vontade raramente chega inteira ao fim.
A pergunta que interessa (e que devia ser respondida em praça pública)
A pergunta não é “como é possível?”. A pergunta é esta:
As salvaguardas do regime são aplicadas com o mesmo rigor que o Estado exige ao contribuinte anónimo?
Porque uma democracia não morre apenas de ilegalidade. Morre de algo mais discreto: a crença de que a lei não é uma só. E quando essa crença se instala, o povo aprende uma lição errada, venenosa, mas eficaz:
“Em Portugal, o problema não é dever. O problema é dever sem amigos.”
Conclusão
A legalidade pode manter-se impecável e, mesmo assim, a justiça — enquanto sensação colectiva — pode apodrecer por dentro. E quando o povo perde a crença na simetria, tudo o resto é consequência: cinismo, abstenção, revolta.
É então que a frase antiga volta a ser exacta como uma lâmina: “aos amigos tudo; aos outros, aplique-se severamente a lei.”
E um país que normaliza isto não precisa de inimigos: basta-lhe continuidade.
Quando a justiça é selectiva, deixa de ser justiça — passa a ser privilégio.
Referências (imprensa)
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Jornal de Negócios — notícia sobre dívidas ao Estado, pensão e pedido de exoneração do passivo restante.
https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/manuel-serrao-faliu-com-dividas-de-44-milhoes-ao-estado-mas-beneficia-de-uma-pensao-de-3-191-euros -
Diário de Notícias — declaração de insolvência e referência a ausência de bens (segundo decisão citada).
https://www.dn.pt/sociedade/manuel-serro-declarado-insolvente-no-titular-de-bens-mveis-ou-imveis -
ECO — tribunal declarou insolvência; contexto de créditos e recuperação.
https://eco.sapo.pt/2026/01/09/tribunal-do-porto-declarou-manuel-serrao-insolvente/ -
Sábado — republicação/eco do tema com síntese e contexto.
https://www.sabado.pt/portugal/amp/manuel-serrao-faliu-com-dividas-de-44-milhoes-ao-estado-mas-beneficia-de-uma-pensao-de-3-191-euros -
Correio da Manhã — cobertura do mesmo tema (dívidas/pensão/exoneração).
https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/manuel-serrao-faliu-com-dividas-de-44-milhoes-ao-estado-mas-beneficia-de-uma-pensao-de-3-191-euros
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas — Fragmentos do Caos


