Banalidade do mal extremo,  Democracia e Sociedade,  Manifesto,  Política Internacional,  Soberania Digital,  Sociedade e politica,  Team Collaboration

NATO 3.0: A Europa, finalmente adulta (ou órfã em negação

Spread the love











BOX DE FACTOS
  • “NATO 3.0” é a etiqueta do reequilíbrio: mais esforço europeu, menos “automático” na protecção americana.
  • O choque não é militar — é psicológico: a Europa percebe que garantias podem variar com ciclos políticos.
  • A UE tem cláusula (42.7), mas uma cláusula não substitui comando, indústria, munições e prontidão.
  • Três perguntas mandam no debate: quem paga, quem manda e quem garante o último degrau.
  • Tese central: ou a Europa cresce, ou é gerida.

FRASE-CHAVE:
A Europa não está a receber permissão para crescer — está a perder a garantia automática de não ter de crescer.

NATO 3.0: A Europa, finalmente adulta (ou órfã em negação)

“Os EUA autorizam a Europa a ter exército próprio.” A palavra é um luxo imperial: não é licença — é aviso. E aviso é o nome civilizado do abalo.

Há títulos que são bofetadas embrulhadas em celofane diplomático: “os EUA autorizam a Europa a ter exército próprio”. A palavra autorizar é deliciosa — lembra um pai impaciente a dar licença ao filho para atravessar a rua… depois de lhe cortar o seguro do carro.

O que está em causa não é uma autorização; é um recado. Um recado dito em Munique, por entre discursos polidos e nervos em estado bruto: a NATO vai tornar-se mais europeia na liderança e no esforço, com os EUA a manterem presença forte, sim — mas a empurrar o continente para a linha da frente da sua própria sobrevivência.

A Europa com guarda-costas… e alma de condomínio

E aqui entra o verdadeiro drama: a Europa habituou-se a viver como quem tem um guarda-costas à porta e, por isso, passa anos a discutir o sofá, a cor da parede, o regulamento do condomínio e o tamanho das letras no elevador — enquanto o mundo lá fora aprende a arrombar portas.

A Europa tem tudo para ser potência — economia, tecnologia, população, indústria — mas sofre de uma doença antiga: finge que a segurança é um detalhe administrativo. E segurança não é um detalhe. É o tecto. Só se lembra dele quando começa a pingar.

A cláusula existe, mas o músculo não

Nos últimos dias, a conversa acelerou: voltou ao centro do palco o Artigo 42.7 da União Europeia, a tal “defesa mútua” que, no papel, soa a promessa solene. Só que o papel não dispara, não transporta, não reabastece, não coordena. Uma cláusula não é um exército. Um artigo não é uma cadeia de comando. Uma frase não é munição.

E é aqui que mora a infantilidade estratégica: queremos autonomia estratégica como quem quer liberdade total, mas pedimos mesada para tudo. Queremos soberania, mas terceirizamos a coragem. Queremos paz, mas adiamos a preparação, como quem adia a revisão do carro até ao dia em que o motor gripa.

Responsabilização: sem choradinhos, sem ilusões

Há quem diga: “sem os EUA não dá”. Talvez. Talvez ainda não. Mas a pergunta certa não é essa. A pergunta certa é: por que razão, após décadas, ainda não dá? Porque não quisemos que desse.

Preferimos a ilusão confortável: “o guarda-chuva está garantido”. E com essa ilusão construímos um continente brilhante por fora — e perigosamente dependente por dentro. Uma Europa que exporta normas e importa segurança. Uma Europa que adora o discurso dos valores — mas hesita no preço dos valores.

E agora, quando Washington muda de tom e de prioridades, o continente descobre que a História não oferece assistência técnica vitalícia. Alguns discursos parecem conciliatórios, mas deixam um subtexto duro: “pertencemos juntos”… desde que a Europa seja capaz de carregar parte real do peso.

O que tem de mudar (em linguagem de adulto)

Portanto, sim: responsabilização. Mas não é responsabilizar “os outros” por quererem menos custo. A responsabilidade é nossa. A Europa tem de fazer o que sempre evitou fazer a sério:

  • Decidir rápido (e não por unanimidade eterna, como se a ameaça esperasse pela tradução para 24 línguas).
  • Produzir e armazenar (munições, defesa aérea, logística — o aborrecido que vence guerras).
  • Criar comando e coordenação (para não termos 27 exércitos que se cumprimentam, mas não se encaixam).
  • Assumir o custo político de dizer aos eleitores a verdade: segurança tem preço, e a factura não cabe num PowerPoint.

Porque a alternativa é simples e terrível: ou a Europa cresce, ou a Europa é gerida. E um continente “gerido” por forças externas — amigas hoje, imprevisíveis amanhã — deixa de ser sujeito da História e volta a ser cenário.

Chegou o tempo de abandonar a infância estratégica. E de lembrar uma regra antiga: quem não paga a sua própria defesa, paga a vontade dos outros.

“Acabou o tempo das meias‑medidas. Chegou o tempo da coragem.
Uma Europa adulta, capaz de honrar o passado e conquistar o futuro.”

CHAMADA À ACÇÃO

Se a Europa quer ser adulta, que o prove em três decisões concretas: orçamentos estáveis, indústria de defesa à escala e capacidade real de comando e prontidão.
A História não espera por consensos eternos — nem por comunicados com sorrisos.

Entre a dependência e a soberania, a Europa descobre que a paz também exige musculatura.


Referências (publicações internacionais)

Ou a Europa se unifica em poder — económico, político e militar — ou continuará unida apenas na vulnerabilidade.

Artigo da Autoria de : Francisco Gonçalves
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas — Fragmentos do Caos

Nota do autor : Esta é uma tese e convicção pessoal de há muitos anos, alguns antes de Portugal ter integrado a anterior CEE. Parte do texto foi escrito há 50 anos atrás.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos