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Altar e Trono: os dois gémeos do controlo — quando a fé e a política viram ferramenta de domesticação

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BOX DE FACTOS
  • Quando se corrompem: religião e política convergem numa coisa: controlo.
  • Ferramentas clássicas: medo, culpa, promessa adiada, inimigo inventado, ritual e propaganda.
  • Objectivo recorrente: povo dócil, elites estáveis, exploração “legitimada”.
  • O truque-mãe: substituir consciência por obediência.
  • A nuance essencial: fé e política podem servir a dignidade; o problema é quando viram máquina.

Altar e Trono: os dois gémeos do controlo

Igreja e política — Sempre irmanadas quando deixam de ser serviço e passam a ser império — nascem da mesma semente: dominar o povo, domesticar a consciência, e garantir que a maioria trabalha enquanto uma minoria decide.

A semente: controlar através da narrativa

O poder precisa de história. Precisa de um enredo que torne a submissão razoável, quase virtuosa.
Quando a política apodrece, vende “salvação” em forma de promessa: a próxima reforma, o próximo plano,o próximo ciclo. Quando a religião apodrece, vende “salvação” em forma de contrato: a próxima oração, a próxima penitência, a próxima oferta, e o reino dos céus.

O produto é sempre o mesmo, virtual, com embalagem diferente: adiamento.
A justiça fica para amanhã. E enquanto “amanhã” não chega, paga-se hoje — com trabalho, silêncio e medo.

Exemplos civilizacionais: a história repete a técnica

1) Egipto e os reis-deuses: o faraó não era apenas governante; era ponte para o sagrado.
Se o poder é divino, a contestação vira pecado. A política torna-se liturgia, e o povo torna-se rebanho.

2) Roma e o culto imperial: o Estado aprende cedo que símbolos unem mais do que argumentos.
O império não domina só com legiões — domina com rituais, medalhas, deuses oficiais,e uma ideia simples: “o centro é eterno; tu és substituível”.

3) A viragem constantiniana: quando o poder político descobre a utilidade de uma religião organizada, nasce uma aliança de aço: o altar dá legitimidade; o trono dá protecção e recursos.
A fé pode inspirar justiça — mas a instituição pode, também, tornar-se administração do sagrado.

4) Idade Média, indulgências e medo: a economia do perdão tornou-se, em certos períodos, uma tecnologia de controlo: culpa como grilhão, absolvição como moeda.
O povo aprendia a baixar a cabeça; os poderosos aprendiam a comprar tranquilidade.

5) O “direito divino” dos reis: quando a monarquia se unge, a lei perde dentes.
Se o rei responde “só a Deus”, então o povo responde “só com silêncio”.
É a teologia transformada em cofre.

6) A Revolução Francesa e a religião substituta: quando se derruba um altar, pode nascer outro, com a mesma fome: templos da razão, cultos cívicos, símbolos novos, catecismos novos.
O problema não é a razão — é a tentação de trocar pensamento por dogma, só que agora com outro uniforme.

7) Totalitarismos modernos: o século XX mostrou como a política pode virar religião sem Deus: partido como igreja, líder como santo, dissidência como heresia, propaganda como oração diária.
Arde-se menos incenso — mas queima-se mais gente (metaforicamente e não só).

O kit de controlo: cinco ferramentas que não falham

Medo: do inferno, do caos, do inimigo, do “outro”.
Culpa: para te manter pequeno, e agradeceres migalhas.
Ritual: para suspenderes a dúvida e aceitares o papel.
Inimigo: para canalizar a raiva e salvar os donos do sistema.
Promessa adiada: para continuares a pagar hoje aquilo que nunca chega amanhã.

A exploração “santificada”

No fundo, o truque mais obsceno é este: transformar exploração em virtude.
Trabalha, cala, obedece — e serás recompensado, no futuro do infinito. Não agora, claro. Agora é só “sacrifício”.
O sacrifício, curiosamente, é sempre do mesmo lado: do lado de baixo.

E quando alguém levanta a cabeça, lá vem o coro: “És ingrato.” “És perigoso.” “Estás contra a ordem.” “Estás contra Deus.” “Estás contra o povo.”
A máquina tem muitas línguas, mas uma só vontade: manter-te dócil.

A nuance que salva o pensamento

Atenção: isto não é um ataque à fé — é um ataque à captura da fé.
Nem é um ataque à política — é um ataque à captura da política.
A fé pode ser fonte de compaixão e coragem; a política pode ser arquitectura do bem comum.
O que é intolerável é quando ambas se tornam máquinas de domesticação.

Epílogo: o povo não nasceu para rebanho

O século XXI não precisa de mais templos do medo nem de parlamentos de teatro.
Precisa de cidadãos adultos: gente que duvida, pergunta, verifica, discute — e não entrega a consciência nem a padres de carreira, nem a políticos de carreira, nem a “salvadores” em geral.

Porque quando altar e trono se abraçam, a liberdade fica sempre do lado de fora— à chuva.

REFERÊNCIAS FILOSÓFICAS (internacionais) — para ir à fonte
  • Max WeberPolitics as a Vocation (Estado e monopólio da força legítima).
  • Thomas HobbesLeviathan (o “poder comum” e o medo como cimento da ordem).
  • Karl MarxA Contribution to the Critique of Hegel’s Philosophy of Right (religião e sofrimento social).
  • Hannah ArendtThe Origins of Totalitarianism (ideologia, terror e dominação total).
  • Michel FoucaultDiscipline and Punish (poder, disciplina e corpos dóceis).
  • Niccolò MachiavelliDiscourses on Livy / The Prince (religião e utilidade política).
  • James C. ScottSeeing Like a State (legibilidade administrativa e ambições totalizantes).
  • Carl SchmittPolitical Theology (soberania e “estado de excepção”).
Nota: as obras acima não são “evangelhos”; são ferramentas. Lê-as como quem afia o pensamento — não como quem procura um novo altar.

Ensaio politico e filosófico da Autoria de :

Francisco Gonçalves
Com co-autoria editorial de Augustus Veritas — onde a crítica é antídoto e a lucidez é dever.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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