Uma reflexão pessoal – Contra os Mitos: eu respondo por mim
- Abominar mitos é recusar a idolatria como atalho moral.
- Responsabilidade é responder pelos próprios actos sem “crachás” de virtude.
- Consciência não é palco: é tribunal íntimo, sem aplauso.
- A excepção não é idolatria: é legado — a raiz que não mente.
- Um pai não é um mito: é um homem real que nos ensinou com vida e silêncio.
Contra os Mitos: eu respondo por mim — e só ao meu pai faço vénia
A minha moral não é emprestada: é minha.
E é a mim — e aos outros — que presto contas.
Só há uma excepção: o meu pai.
Os mitos são máquinas de absolvição
O mito tem uma função prática: aliviar o peso da consciência. Quando há um ídolo, há sempre um caminho para fugir à responsabilidade: “fiz porque ele mandou”, “fiz porque era a causa”, “fiz porque era o bem”.
E assim o homem transforma-se em instrumento — e o instrumento, por definição, não se culpa. Executa.
Eu abomino essa engenharia de fuga. Não por arrogância, mas por higiene.
Porque a idolatria é uma forma polida de renunciar ao pensamento: entrega-se o juízo a terceiros e chama-se a isso fé, patriotismo, militância, anti-fascismo, democrata, agente do bem ou qualquer perfume com rótulo dourado.
A moral não é crachá: é dívida
Há quem use rótulos como coletes à prova de crítica. “Sou isto”, “sou aquilo”, “sou do lado certo”.
E depois, com a serenidade de quem se julga imune, permite-se ferir os outros com a tranquilidade do auto-perdão.
A etiqueta vira licença. A ideologia vira alibi. O aplauso vira absolvição.
Mas a moral verdadeira não é um cartão de filiação — é uma dívida diária.
Uma conta que se paga com actos e limites, com recuos quando é preciso recuar, com coragem quando custa, com o incómodo de admitir: “errei”. A moral não nos enfeita. A moral obriga-nos.
O tribunal íntimo (sem público, sem banda sonora)
O mundo adora plateias: likes, gritos, tribos, fogos de artifício. Mas a consciência não vive em comícios.
Ela vive naquele instante solitário em que ninguém vê — e mesmo assim sabemos.
Aí não há claque. Aí não há desculpa.
Aí a pergunta é nua: “Foste justo?”
E quando a resposta é “não”, não basta declarar virtude. É preciso corrigir, reparar, pedir desculpa, mudar.
Tudo o resto é teatro e folclore. E Portugal já tem teatro a mais e realidade a menos.
A excepção: o pai não é mito — é raiz
E, no entanto, há uma excepção que não contradiz nada do que escrevo: o meu pai.
Não é um santo de vitrina, nem um nome para bandeiras. É um homem real — feito de dias, trabalho, dureza, afecto discreto e uma dignidade que não precisava de ser anunciada.
Um pai amado não é idolatria: é legado. É a mão invisível que nos endireita a coluna quando o mundo nos quer de joelhos. É a memória que nos pergunta, sem palavras: “vais ser digno?”
É a raiz que nos impede de virar folha ao vento.
Eu não ajoelho perante deuses nem perante homens — mas ao meu pai Augusto faço vénia.
Não por perfeição. Por amor. Por gratidão. Por aquilo que ficou e me deixou como bússola.
Epílogo: não acendo velas, acendo perguntas
A humanidade precisa menos de mitos e mais de consciência.
Menos de slogans e mais de carácter.
Menos de “heróis” repetidos em coro e mais de homens que, no silêncio, escolhem não ser canalhas.
Eu respondo por mim. E é por isso que consigo honrar o meu pai sem o transformar em cartaz: porque ele não me ensinou a adorar — ensinou-me a ser responsável.
Esta é uma reflexão pessoal do autor e responsável editorial de Fragmentos do Caos.
Escrevo-a porque acredito que, conhecendo-me melhor, os meus leitores podem compreender com mais nitidez o lugar de onde falo — e, sobretudo, o lugar de onde recuso falar: o da fé cega, o do culto, o da idolatria. Aqui não há “figuras sagradas” para desculpar actos nem “mitos” para anestesiar consciências. Há apenas a tentativa — imperfeita, mas honesta — de manter a moral como responsabilidade individual, e a palavra como compromisso com a dignidade humana. Se esta nota servir para aproximar o leitor da intenção, já cumpriu o seu propósito.
E se a verdade incomodar, que incomode: pior seria a consciência adormecida.
Em Fragmentos do Caos


