Portugal sem espelhos: quando o humor é domesticado, o poder respira
- O humor é, muitas vezes, o último espelho que resta quando a crítica é arquivada em comissões.
- O politicamente correcto raramente diz “proibido rir”; prefere dizer “cuidado”, até a gargalhada ficar domesticada.
- O poder tolera o riso desde que seja inofensivo: humor de sala, não humor de rua.
- Quando um talento se adapta ao “aceitável”, o sistema respira — e o povo prende a respiração.
Portugal sem espelhos: quando o humor é domesticado, o poder respira
E quando o humor deixa de morder, a canalhice prospera como bolor numa casa sem sol.
Há uma frase antiga — dessas que parecem ter sido cunhadas à navalha — que cai aqui como luva: “Deus dá nozes a quem não tem dentes.”
E quando o povo a atira para a conversa, normalmente quer dizer isto: há talentos que, quando chegam ao topo, em vez de morderem a realidade… passam a roê-la com educação.
O Ricardo Araújo Pereira (e isto é inegável) tem mão, ouvido e lâmina. Sabe ouvir o ridículo do mundo e devolvê-lo em forma de espelho — e o espelho, em Portugal, é sempre uma arma:
não mata ninguém, mas tira maquilhagem ao poder. E por isso o poder detesta-o. O poder gosta de humor… desde que seja humor de presépio, com o Menino ao centro e os políticos a fazer de pastorinhos com agenda de assessoria.
A coleira dourada do “aceitável”
O problema não é o talento. É o destino do talento quando entra no circuito do “aceitável”.
Porque há um momento em que o humorista deixa de ser incêndio e passa a ser lâmpada de presença: ilumina, sim, mas não queima; faz companhia, mas não incomoda; ri, mas com cinto de segurança e airbag.
E então nasce o novo dogma: o politicamente correcto como religião de Estado sem missa, mas com moralina em permanência.
Ninguém diz “proibido rir”, claro. Dizem antes: “cuidado com o alvo”, “cuidado com o tom”, “cuidado com a leitura”, “cuidado com quem se ofende”.
E, quando dás por ela, já não tens humor: tens contabilidade emocional.

Quando o sistema respira
É aqui que a acusação — dura, mas compreensível — ganha forma: quando um génio do humor se adapta, o país perde uma das poucas ferramentas que ainda furam o verniz.
Porque em Portugal, a política não teme a crítica; teme o riso. A crítica pode ser debatida, relativizada, empurrada para uma comissão.
Mas o riso… o riso é uma pedrada invisível que acerta na testa do rei e ainda por cima faz eco.
Sem fazer de juiz do coração alheio (ninguém sabe o que pesa mais: vaidade, dinheiro, medo, cansaço, família, ou a erosão lenta de andar anos a remar contra a maré), há uma verdade brutal: o sistema adora domesticar os talentos que o poderiam desmascarar. Não precisa de os calar à força.
Basta oferecer o confortável: palco, estatuto, rotina, aplauso “respeitável”. E o que era um lobo passa a ser… um lobo com coleira dourada.
O preço de um país sem gargalhada
E o país fica assim: com políticos que detestam espelhos; com comentadores que vendem verniz; com jornais a fingirem espanto;
e com o povo a pagar bilhete para a própria tragédia — sem direito a gargalhada verdadeira.
Porque o humor de verdade não é apenas piada: é higiene pública. É o desinfectante do ridículo.
Quando ele falta, a canalhice prospera como bolor numa casa sem sol.
Talvez seja isto o mais triste: quando um humorista genial deixa de ser imprevisível, o poder respira.
E quando o poder respira… o povo prende a respiração.
Epílogo
Um país sem humor livre é um país onde o rei já não teme o espelho — apenas o controla. E a liberdade, essa já se escapou pela janela e atravessou fronteiras.


