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O País do PowerPoint: quando a ferrovia é gerida por slides

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BOX DE FACTOS
  • O Tribunal de Contas auditou a execução do Programa Ferrovia 2020 e concluiu que o planeamento foi, no mínimo, optimista.
  • Uma crítica central: ausência de um documento formal com programação física e financeira — a “gestão” vivia, em larga medida, de apresentações.
  • O programa, lançado em 2016, acumulou atrasos e derrapagens, com metas revistas ao longo do tempo.
  • Moral provisória: em Portugal, o carril é de aço… mas o plano é de PowerPoint.

O País do PowerPoint: quando a ferrovia é gerida por slides

Há países que planeiam com mapas, números e prazos. Nós planeamos com transições suaves, setas coloridas e aquela fé infantil: “no próximo slide, resolve-se tudo”.

Isto já nem é sátira — é auto-retrato. Um país que nasceu com locomotivas e acabou a governar-se com “templates” encontrou finalmente a sua forma perfeita: a ferrovia enquanto apresentação.

O Tribunal de Contas veio pôr a lâmpada na sala: no que toca ao planeamento e à programação do Ferrovia 2020, não existia um guião formal, com programação física e financeira devidamente descrita. O que existia, em essência, era a liturgia moderna do Estado: a fé no slide. 0

A República das Transições

A lógica é simples e profundamente nacional: o comboio pode atrasar, mas a animação “fade-in” chega sempre a horas.
O carril pode estar por fazer, mas a barra de progresso do PowerPoint está impecável. E, se a realidade insistir em falhar, inventa-se um plano ajustado — que é uma maneira elegante de dizer “vamos rebatizar o atraso”. 1

A certa altura, já nem se trata de incompetência; é uma cultura. A cultura do “está em curso”, do “estamos a trabalhar a todo o vapor” (vapor esse, claro, gerado por impressoras a cuspir relatórios de reunião), do “o importante é a visão”. E a visão, em Portugal, costuma vir em 16:9.

A ferrovia como teatro: o povo paga, o slide passa

Quando uma entidade pública não tem um instrumento robusto para acompanhar a implementação de um programa desta dimensão, o que sobra é o teatro: reuniões, “stakeholders”, fotografias de capacete, comunicados, e o coro final: “estamos comprometidos”. Comprometidos com quê? Com a estética da apresentação. 2

E aqui entra a frase — certeira como um apito de estação antiga: Portugal nem precisa do Ricardo Araújo Pereira, nem de outros humoristas, porque o regime já vem com humor incorporado. Não é humor fino; é humor de queda. A gargalhada que sai quando percebemos que, no fundo, a nação foi transformada num “workshop” permanente onde a realidade é sempre um “ponto de situação”.

Epílogo: quando o PowerPoint descarrila

Há um país possível do outro lado disto: um país onde planear é medir, calendarizar, controlar, corrigir — e publicar.
Um país onde um programa público não vive de “slides”, mas de responsabilidade.
Até lá, seguimos nisto: carris por acabar e apresentações por actualizar.

Frase final: Se a História um dia nos pedir provas do que fizemos, nós entregamos-lhe um ficheiro:
Ferrovia_2020_FINAL_V7_ AGORA_SIM_REVISÃO_ÚLTIMA.pptx.

Referências

  • Público (18/02/2026) — “Tribunal de Contas constata que IP apenas tinha um PowerPoint com o planeamento do Ferrovia 2020”
    (link partilhado pelo utilizador).
  • Tribunal de Contas — Notícia: “Auditoria à execução do Programa Ferrovia 2020”. 3
  • Tribunal de Contas — Relatório de Auditoria (PDF): “Ferrovia 2020”. 4
Francisco GonçalvesFragmentos do Caos
Co-autoria editorial: Augustus Veritas
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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